“Pilantra” amiga de Lulinha teve projeto de R$ 336 mil aprovado na Lei Rouanet para livro de poesia e gastronomia - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Corrupção 01/09/2026 07:28

“Pilantra” amiga de Lulinha teve projeto de R$ 336 mil aprovado na Lei Rouanet para livro de poesia e gastronomia

“Pilantra” amiga de Lulinha teve projeto de R$ 336 mil aprovado na Lei Rouanet para livro de poesia e gastronomia

Roberta Luchsinger, investigada pela PF por tráfico de influência, tentou lançar obra que uniria receitas saudáveis, versos e ensaio fotográfico

Investigada pela  por tráfico de influência e Roberta Luchsinger protagonizou, há mais de uma década, uma tentativa frustrada de captar recursos pela Lei Rouanet para publicar um livro que prometia fundir poesia, gastronomia e fotografia.

A proposta foi aprovada pelo Ministério da Cultura durante o governo de Dilma Rousseff (PT), com valor estipulado em R$ 336.085, mas o dinheiro jamais chegou a ser captado.

Projeto aprovado no Diário Oficial nunca saiu do papel

De acordo com dados do governo federal, a editora responsável apresentou a proposta ao Ministério da Cultura via Lei Rouanet.

O resumo do projeto, publicado no Diário Oficial da União, descrevia a iniciativa da seguinte forma: “O projeto Gastronomia em Verso e Prosa (nome provisório) será um livro de arte que tem a missão de unir poesia, gastronomia e fotografia, mostrando que todas essas manifestações artísticas podem se entrelaçar em uma única obra. Por meio de receitas saudáveis escritas de maneira poética e de um ensaio fotográfico primoroso, a obra idealizada por Roberta Luchsinger revelará ao leitor que o universo gastronômico está intrinsecamente ligado à arte”.

Apesar da aprovação pela gestão cultural da época, a verba nunca foi movimentada. O motivo registrado nos documentos oficiais foi “excesso de prazo sem captação”: a proponente não conseguiu reunir o valor mínimo junto a patrocinadores dentro do prazo determinado, que expirou entre novembro e dezembro de 2015. O processo foi arquivado.

De aulas de culinária a investigação da Polícia Federal

Entre 2013 e 2015, período em que buscava viabilizar o livro, Roberta Luchsinger também se aventurava pelo universo gastronômico de outra forma. Após perder 35 quilos “sem cirurgia nem remédio”, ela passou a ministrar aulas particulares sobre o tema em São Paulo.

A incursão na culinária e a tentativa editorial, contudo, ficaram em segundo plano diante dos desdobramentos judiciais que hoje cercam seu nome.

Segundo a investigação da Polícia Federal, à qual a revista VEJA teve acesso, existem evidências robustas de que Roberta mantinha uma sociedade oculta com Fábio Luís  da Silva, o Lulinha, e Fernando Bittar, com o objetivo de intermediar negócios privados junto ao governo.

Os delegados concluíram: “Os elementos probatórios obtidos no curso da investigação revelam a existência de um núcleo de atuação permanente e coordenada composto por Roberta Moreira Luchsinger, Fábio Luís Lula da Silva e Fernando Bittar, voltado à interlocução de interesses privados perante agentes e órgãos da Administração Pública Federal”.

Proximidade com Lula e recusa de cargo no governo

Nas mensagens obtidas pelos investigadores, a lobista alardeava uma suposta relação próxima com o presidente Lula. Segundo ela, o petista teria lhe oferecido um cargo no governo — convite que teria declinado. Em conversa com um empresário em 2024, Roberta detalhou sua decisão:

“Fui das poucas pessoas que o Lula chamou e perguntou: escolhe onde você quer ficar. (…) Eu disse: onde eu estou. Na minha sociedade com Fábio e Fernando.” E completou a justificativa: “Não estou em cargo nenhum e ando onde quero”.

Em sabatina na TV Globo realizada na última semana, o presidente Lula negou ter oferecido qualquer cargo a Roberta, a quem chamou de “pilantra”.

Articulações no Ministério da Saúde e o papel de Marcola

A investigação da PF, conforme também revelou VEJA, mostra que Lulinha já se movimentava nos bastidores havia algum tempo.

O grupo necessitava de acesso ao . Para viabilizar essa ponte, coube a  — homem de confiança de Lula, com acesso direto ao gabinete presidencial — agendar uma reunião entre a lobista e Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta. A reunião só se concretizou após a interferência de Lulinha.

Em 6 de março de 2024, Roberta enviou uma mensagem a Fábio“Pousei. Vou lá no Berge”. A resposta do primogênito veio em tom irônico: “Que ótimo. Vai com tudo. Manda beijo pro Berge e fala que não fui porque você não chamou”. Roberta não disfarçou o propósito do contato: “Precisamos 100% do Berge”.

Após o encontro, Marcola recebeu a minuta de um documento que liberava a produção de medicamentos à base de canabidiol.

Pagamento de contas pessoais e joias para auxiliar de Lula

No mesmo período, Roberta passou a quitar contas pessoais de Marcola. Entre fevereiro e novembro de 2024, foram R$ 217.098 em faturas de cartão de crédito, boletos de apólice de seguro, financiamento de carro, além de um par de brincos e um pingente de diamantes que ele usou para presentear a esposa.

Marcola era figura de grande influência no Palácio do Planalto. Ele testemunhava conversas fora da agenda oficial e chegava a atender o celular do presidente.

Acabou exonerado em julho passado, por ordem do próprio Lula. Em sua defesa, ele garante que as transações financeiras com a lobista foram parte de um empréstimo pessoal, devidamente quitado posteriormente, e que sua saída do governo não teve relação com o caso. Roberta confirma a versão do empréstimo. Até o momento, Marcola não é investigado formalmente no inquérito.

Dívida milionária em impostos

Enquanto despendia centenas de milhares de reais com presentes, joias, quadros e pagamento de contas de terceiros, a lobista acumula, ao menos, R$ 1 milhão em impostos atrasados por meio de empresas nas quais figura como sócia.

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


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