Esse tipo de ataque tem nome: juice jacking, uma técnica que transforma uma necessidade banal, recarregar o celular, em uma possível porta de entrada para criminosos.
O termo foi cunhado pelo jornalista Brian Krebs em 2011 quando, durante a DEF CON (conferência de hackers nos EUA), ele testemunhou um grupo de pesquisadores realizar um teste demonstrando que ataques assim eram possíveis.
Esse tipo de teste é comum na área de tecnologia e é chamado de “prova de conceito” – ou seja, é plausível que alguém mal-intencionado consiga armar um esquema do tipo.
O funcionamento é relativamente simples: utilizando uma porta USB ou um cabo adulterados, um invasor pode se aproveitar de vulnerabilidades no sistema operacional do telefone. Caso consiga acesso, ele pode cometer diversos atos maliciosos: roubar dados, instalar malware e até tentar criar uma forma de controle sobre o aparelho.
A descoberta dessa técnica gerou uma resposta imediata das big techs: as novas versões de iOS (Apple) e Android (Google) passaram a contar com medidas para prevenir esses ataques, em especial a solicitação de consentimento do usuário antes que uma conexão de transferência de dados com um computador seja efetuada.
Pelos próximos anos, o juice jacking virou motivo de alerta nas redes: muitos sites e autoridades (como o FBI) passaram a emitir alertas expressos para que as pessoas não carregassem seus celulares em tomadas públicas e que não usassem cabos que não fossem os seus próprios.
Parecia realmente um aviso importante: a necessidade de recarregar o celular é geral e constante, portanto a ideia de que bandidos tentariam se aproveitar disso faz todo o sentido.
Só que a realidade mostra que não é bem assim: até 2025, não houve casos documentados de invasões reais por juice jacking, com exceção das provas de conceito. Moral da história? É até possível que a história do início do texto aconteça. Só que é extremamente improvável (tanto que você não precisa se preocupar tanto com isso).
Um perigo corriqueiro, mas só no conceito
Uma investigação do site Ars Technica publicado em 2023 observou que não há casos documentados de juice jacking em estações de carregamento públicas afetando dispositivos iOS ou Android modernos.
A própria Apple informou ao veículo que não tinha conhecimento de quaisquer ataques desse tipo ocorrendo na prática.
“Em linhas gerais, se ninguém consegue apontar um exemplo real de isso acontecendo de fato em espaços públicos, então não é algo com que o público em geral precise se preocupar”, disse ao site Mike Grover, pesquisador que desenvolve ferramentas de hacking ofensivo.
A conclusão do Ars Technica é que um civil só deveria se preocupar com isso se ele já fosse alvo de hackers por outro motivo — uma situação em que, presume-se, a pessoa já estaria se cuidando contra ataques simples como esse.
Ao longo dos anos, outros grupos de hackers pesquisadores fizeram descobertas similares ou análogas ao juice jacking, como o “video jacking”, que consegue obter dados a partir do que é mostrado na tela, e o “ChoiceJacking”, em que o hardware malicioso consegue permitir a transferência de dados sem a necessidade de interações com o usuário.
Mas todos permanecem com o mesmo status: são provas de conceito e não ataques reais.
Problemas de verdade
Especialistas afirmam que existem ameaças muito mais sérias para o usuário comum do que o juice jacking. Elas incluem redes wi-fi públicas maliciosas, que podem ser usadas para instalar malware nos celulares, QR Codes falsos colados em cima dos reais e cabos comprometidos (capazes de fornecer acesso ao sistema) vendidos pela internet ou distribuídos gratuitamente para vítimas desavisadas.
Em linhas gerais, a melhor prática fora de casa continua sendo levar seu próprio carregador e seu próprio cabo e, quando possível, utilizar powerbank em vez de plugues públicos.
Não especificamente por causa do juice jacking, mas como medida de segurança geral. Também é importante manter o sistema do seu celular atualizado, utilizar senhas fortes e variadas para diferentes apps e evitar ao máximo utilizar pontos públicos de wi-fi.

