Tecnologia 21/05/2026 18:45
Vida analógica: como o retorno de tecnologias antigas é uma resposta ao cansaço digital

Por influência de grupos de jovens – em especial da geração Z, nascidos após 1997 –, objetos como esses voltaram a ganhar popularidade. E essa “rebelião analógica” vem promovendo o retorno de mercados antes obsoletos e a valorização de produtos que pareciam ter ficado nas décadas passadas.
A busca pela desconexão digital vai muito além de uma modinha do momento, já que ela está associada a mudanças na relação e contato com a tecnologia.
Mas, afinal, isso é efeito de um apego nostálgico ou de uma necessidade contemporânea?
Segundo uma pesquisa feita pela consultoria Harris Poll em 2023 e divulgada pelo jornal The New York Times, cerca de 60% dos jovens da geração Z dos EUA expressam o desejo de ter vivido em uma época menos conectada, revelando um cansaço coletivo com a velocidade do digital.
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Mesmo que alguns acreditem se tratar de um “drama geracional”, os dados não mentem: em 2023, 92,5% dos domicílios brasileiros já tinham acesso à internet, segundo levantamento feito na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE.
O dado de 2025 da Pesquisa Anual de Uso de TI, conduzida pela FGVcia (Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da FGV), também revela que o brasileiro atingiu 502 milhões de dispositivos digitais – uma média de 2,4 por pessoa.
É nesse contexto de hiperconexão que surge um paradoxo: pagamos contas, pedimos comida, trabalhamos e nos entretemos via o digital, condições que poderiam ser consideradas de grande conveniência. Porém, o resultado é uma crescente saturação do meio virtual, e uma necessidade de retomar vivências “reais”.
“A geração Z, sem dúvida, acelera esse movimento porque foi a primeira a crescer completamente imersa em telas. Ela sente mais rápido os efeitos da hiperconectividade: ansiedade, cansaço mental, excesso de estímulo, dificuldade de presença.
Mas limitar essa discussão a uma geração seria reduzir um fenômeno que já é mais amplo”, diz Maria Eduarda Guerra, diretora financeira da Banlek, maior plataforma de fotógrafos da América Latina, em entrevista à GALILEU.
Guerra, que observou de perto as mudanças nas demandas do mercado fotográfico, explica que a nostalgia digital em fotografia envolve comprar câmeras com características que fogem das conveniências atuais. Isso envolve ferramentas como um foco automático preciso, edição instantânea e da possibilidade infinita de repetição.
As cyber-shots (que você vê na foto abaixo) são um ótimo exemplo de tecnologia datada, mas que está permitindo um retorno a escolhas estéticas mais autênticas e à valorização da memória – e não necessariamente do conteúdo capturado pelas lentes.
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“Quando alguém opta por uma câmera analógica ou por uma cyber-shot mais simples, essa pessoa está, conscientemente ou não, reintroduzindo limites. Você passa a pensar antes de clicar, aceita que nem tudo será perfeito e abre espaço para o acaso. (…) A imperfeição, seja na granulação, na luz ou no enquadramento, traz uma sensação de autenticidade que hoje está cada vez mais rara em um ambiente visual altamente filtrado e repetitivo”, explica.
Essa preferência pela experiência analógica já se desprende de cliques amadores e começa a influenciar o próprio mercado profissional de fotografias.
Cresce a procura por registros mais espontâneos, menos roteirizados e mais conectados à história de quem está sendo fotografado, como destaca Guerra.
Outra contribuição que a “rebelião analógica” traz é o apelo a mídias físicas em oposição às digitais – ou, pelo menos, daquelas que são acessadas de forma offline.
É verdade que a preferência pelo objeto físico nunca foi abandonada completamente: mais da metade (56%) de brasileiros que compram livros os adquirem apenas em formato físico, de acordo com dados de 2025 do Panorama do Consumo de Livros, pesquisa da Câmara Brasileira do Livro. Porém, há tecnologias com idas e vindas um pouco mais turbulentas.
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Mais surpreendente do que a repopularização de MP3 players é o aumento de vendas no mercado de discos de vinil. Apesar de irem contra a lógica de escutar um som da forma mais prática e barata, dados do relatório Mercado Brasileiro de Música sobre 2024 revelam que os “bolachões” representaram 76,4% das vendas de mídias físicas daquele ano, superando o faturamento dos CDs.
“Dizer taxativamente que o formato morreu é sempre muito perigoso, porque os anos seguintes podem contrariar isso. Estamos sempre vivendo entre a música e as novas tecnologias. Muitas vezes, vêm tecnologias antigas resgatadas. Daqui a pouco vem o cassete. Acho que é [uma união de] curiosidade e nostalgia”, resumiu Paulo Rosa, presidente da Pró-Música Brasil, entidade responsável pelo relatório anual, em entrevista à Agência Brasil em 2026.
O percentual positivo de vendas observado nos últimos dois anos é justificado pelos apreciadores das mídias analógicas, que destacam as vantagens de se escutar música fora das plataformas de streaming. Entre elas, estão a maior liberdade para a construção de uma curadoria pessoal e a própria qualidade som do vinil, capaz de reproduzir mais detalhes e proporcionar uma experiência mais fiel à gravação original.
Outro aspecto é a possibilidade de ser dono, não apenas consumidor, algo que causa apelo especial nos colecionadores, que tratam vinis como objeto de design e decoração.
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Um questionamento sobre a “volta do analógico” pode surgir: não seria apenas uma estética sendo substituída por outra? Em outras palavras, a busca por esse estilo menos controlado se tornou um novo tipo de validação social, replicado para os seguidores no Instagram e TikTok para parecer “diferentão”? A resposta curta é: talvez.
“As redes sociais foram as responsáveis por padronizar o olhar do mundo, mas também foram o pavio para a explosão do novo ‘retrô’. O Instagram e o TikTok criaram uma monocultura visual tão forte que, para se destacar no feed, foi preciso quebrar as próprias regras dessas plataformas”, diz André Vieira, fundador da agência AV Fotografia, em entrevista à GALILEU.
O fotógrafo relata que estúdios já recebem pedidos de “fotos que pareçam ter sido tiradas por uma câmera descartável ou que tenham a textura de um filme antigo”, além de que grandes marcas já se tocaram que o “parecer pouco produzido” é a forma mais estratégica de gerar conexão e confiança com o público.
Em abril, o próprio Instagram lançou uma galeria de efeitos com IA generativa que tenta simular estilos fotográficos de câmeras antigas:
“O que está acontecendo não é uma volta ao passado, mas uma resposta ao presente. E isso não é contraditório com o avanço tecnológico. Muito pelo contrário. É justamente porque o digital chegou ao extremo que o analógico – ou o que parece analógico – volta a fazer sentido. O futuro da fotografia, nesse contexto, não está em escolher entre um ou outro. Está na interseção”, diz a diretora.
Nem toda tentativa de desconexão irá escapar da lógica do mundo digital, mas mudanças comportamentais que surgem desse movimento têm potencial para ajudar uma nova geração ultraconectada a depender menos do algoritmo na criação da própria identidade. Ainda que, enquanto isso, sinta necessidade de compartilhar seu novo hábito de desconexão com seus seguidores na internet.
Deu em BBC

Descrição Jornalista
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