Empresas nos Estados Unidos passaram a exigir que funcionários guardem seus celulares em bolsas com trava magnética durante o expediente. O objetivo é proteger informações sigilosas e a reduzir de interrupções no trabalho.
Como funciona o sistema
A empresa de verificação de identidade digital ID.me foi uma das pioneiras na adoção da política, aplicando-a a cerca de 290 funcionários. Os aparelhos são colocados em pequenas bolsas que só se abrem ao contato com uma estação magnética. O dispositivo permanece com o trabalhador, permitindo que ele perceba chamadas ou alertas de emergência. O uso do celular é liberado durante os intervalos.
A fabricante das bolsas mais conhecidas nesse mercado, a Yondr, afirma que sua clientela inclui tribunais, creches, agências governamentais, mineradoras e empresas com propriedade intelectual sensível.
Segundo Graham Dugoni, fundador e CEO da companhia, “as organizações que nos procuram geralmente já tentaram o sistema de confiança”, e acrescenta: “O que esses ambientes têm em comum é o reconhecimento de que uma política de não usar celular não é o mesmo que um ambiente livre de telefones”
Produtividade: o que diz a pesquisa
Os efeitos sobre o rendimento dos trabalhadores não são uniformes. Adrian Chadi, professor-associado de economia na Universidade de Southampton, afirma que “é muito difícil para os pesquisadores determinar os efeitos de uma proibição em comparação com uma situação sem a restrição no mesmo contexto organizacional”.
Seus estudos indicam ganhos de produtividade em tarefas simples e repetitivas, mas apontam resultado incerto para funções que exigem criatividade e tomada de decisão.
Eoin Whelan, professor de análise de negócios na Universidade de Galway, na Irlanda, acompanhou uma empresa que reverteu a proibição. A conclusão foi que permitir o uso dos aparelhos não reduziu a produtividade e ainda teve efeito positivo — os funcionários passaram a administrar melhor questões pessoais durante o dia.
Para Whelan, “a maioria espera que haja uma fronteira entre trabalho e vida pessoal, especialmente aqueles responsáveis por cuidar da família fora do emprego”.
Resistência inicial e adaptação
A transição não costuma ocorrer sem atrito. Kyle Scofield, vice-presidente sênior da ID.me, relata que nos primeiros seis meses após a adoção das bolsas “as violações eram muito frequentes”, pois parte dos funcionários interpretou a medida como falta de confiança da gerência. Com o tempo, a resistência cedeu.
A funcionária Kamilah Muiruri, da mesma empresa, descreve uma mudança de perspectiva. “Não preciso de tantas pausas para olhar meu celular”, diz. Ela também aponta um efeito imprevisto: “Isso nos faz conectar com os outros. Eu não conhecia as pessoas do escritório porque estava focada nos amigos que tenho fora do trabalho. Agora, somos unidos como equipe e adoramos sair juntos”.
O Royal Court Theatre, em Londres, adotou as bolsas em seu programa de desenvolvimento de dramaturgos. O diretor-executivo Will Young considera a iniciativa simbólica além do prático: “É apenas uma pequena coisa, mas há algo nessa prática que diz: ‘Estou aqui para trabalhar’”.
Scofield recomenda que gestores que pretendem adotar a medida sejam diretos com as equipes e “expliquem o raciocínio” por trás da decisão.


