Os saberes e práticas tradicionais associados aos engenhos de farinha de mandioca de Santa Catarina são, agora, patrimônio cultural imaterial do Brasil.
O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprovou o registro na última quarta-feira (11/03), durante sua 112ª reunião, realizada no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro.
O reconhecimento inscreve a tradição no Livro de Registro dos Saberes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A decisão abrange uma prática com mais de 2 mil anos de história, ainda viva em 88 engenhos ativos distribuídos por 13 municípios catarinenses.
“Estamos fazendo uma reparação histórica, de um bem que dialoga com a história do povo brasileiro como um todo”, afirmou o presidente do Iphan, Leandro Grass, ao saudar indígenas, comunidades negras e os detentores do bem cultural espalhados por Santa Catarina e pelo país.
Em Garopaba, artesãos de farinha de municípios como Ibiraquera e Imbituba se reuniram no Engenho do João e da Cida para acompanhar a transmissão ao vivo pelo canal do Iphan no YouTube.
Uma herança de três mundos
Antes mesmo de o Brasil existir como país, os povos Guarani e Tupi-Guarani já cultivavam mandioca e dominavam o processo de transformá-la em farinha. Um conhecimentos com entre 2 mil e 3 mil anos de idade, segundo pesquisas. Foram esses povos que ensinaram ao mundo como converter uma raiz tóxica em alimento nutritivo e versátil.
A colonização incorporou novos saberes a essa base ancestral. No século 18, imigrantes açorianos chegaram ao litoral catarinense trazendo técnicas de moagem e tração animal herdadas dos moinhos de trigo europeus.
Africanos escravizados em diáspora contribuíram com conhecimentos de agricultura, carpintaria e construção de engrenagens de madeira, saberes integrados à estrutura dos engenhos, mas que a história oficial tardou a reconhecer.
Da fusão desses três mundos, indígena, africano e açoriano, surgiu a chamada “farinha polvilhada”: fina, de branco característico, rica em polvilho e reconhecida em todo o Brasil como marca da produção catarinense. No auge desse ciclo, em 1797, o estado contava com 884 engenhos em funcionamento, base da economia local por gerações.
Mais do que farinha: um modo de vida
O engenho é também espaço de convivência. A farinhada funciona como um mutirão: vizinhos e parentes se reúnem para trabalhar juntos, cada um com sua função;
raspar e lavar a mandioca, operar a prensa, controlar o forno ou peneirar a massa. Enquanto trabalham, cantam. As ratoeiras, cantigas tradicionais, ecoam pelo galpão; o Boi de Mamão anima as crianças; e a refeição coletiva aproxima as gerações.
Adalício Vitor da Silva, o Seu Lício, detentor do bem cultural, aprendeu o ofício observando os pais desde criança. Para ele, herdar um engenho é herdar uma responsabilidade: “Tem que cultivar o filho e os filhos deles para manter bem vivo o engenho, para não deixar acabar.”
O sistema produtivo tem papéis bem definidos.
O forneiro ou forneira domina a arte de torrar a farinha, controlando temperatura e ponto por meio do olfato, tato e visão, função historicamente exercida por mulheres, em jornadas exaustivas. O engenheiro de farinha é o nome que os próprios detentores usam para quem domina todas as etapas do processo. Mestres e mestras guardam receitas e técnicas ancestrais. E os agricultores familiares iniciam o ciclo na roça, com o plantio, cultivo e colheita da mandioca.
Ameaças que pressionam a tradição
Nos últimos dez anos, os engenhos enfrentam ameaças crescentes. A especulação imobiliária avança sobre o litoral catarinense, pressionando roças e galpões tradicionais.
O turismo de massa, sem planejamento adequado, arrisca descaracterizar práticas que dependem de silêncio, tempo e comunidade para existir.

As normas sanitárias e ambientais voltadas à produção de alimentos também criam obstáculos.
Criadas para a indústria, dificilmente se encaixam na realidade de um engenho com forno de barro e prensas de madeira centenárias. Isso gera insegurança jurídica para os produtores e, em muitos casos, força adaptações que descaracterizam o produto original.
Jucélia Beatriz Martins, liderança da Comunidade Quilombola Vidal Martins, em Florianópolis, cresceu vendo sua família trabalhar em engenhos de terceiros após a expropriação de suas terras. Bisneta do ex-escravizado que deu nome ao quilombo, ela carrega um sonho: “O meu sonho é ter um engenho aqui. Para trazer o povo do entorno, outras pessoas de fora para conhecer como é que se faz farinha.”
O saber vale mais do que a estrutura
A relatora do processo no Iphan, Luciana Gonçalves de Carvalho, representante da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), explica a escolha pelo Livro dos Saberes com uma frase que ouviu nas comunidades: “O segredo da farinha é quem faz, não é o engenho. O engenho é só uma máquina”, disse o Sr. Luiz Farias, da Associação Comunitária Rural de Imbituba (Acordi).
Para Luciana, o bem cultural mais significativo dessas comunidades é o conjunto de saberes, práticas e formas de sociabilidade que movem o sistema, não a estrutura física que os abriga.
“A comunidade de detentores vai muito além dos proprietários dos engenhos. Ela abrange grupos e indivíduos que atuam na roça, no cuidado com o território, nas festividades e brincadeiras associadas a cada elemento do sistema da farinha”, destaca a relatora.
Como define o dossiê que embasou o registro: plantar, farinhar e cozinhar não são apenas técnicas. São o marco central de uma identidade que resiste, e que o Brasil agora reconhece como sua.


