FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado
GOVERNO DO RN – SEGURANÇA – 2802 A 2903

Arqueologia 09/03/2026 17:15

A cidade perdida de 1.000 km² que ficou séculos escondida sob a floresta

A cidade perdida de 1.000 km² que ficou séculos escondida sob a floresta

Vista do alto, a floresta no noroeste do Camboja ainda sugere um território marcado por templos isolados e mata fechada.

O mapeamento aéreo com LiDAR, no entanto, mostrou outra escala para Angkor.

Sob a copa das árvores, apareceram canais, diques, reservatórios, estradas e áreas residenciais que integravam um sistema usado para sustentar uma população de centenas de milhares de pessoas no auge do Império Khmer.

Com base nesses levantamentos, pesquisadores passaram a classificar a região como o maior complexo urbano pré-industrial já identificado.

LiDAR em Angkor revelou a escala da cidade escondida

A mudança de perspectiva ocorreu em 2012, quando o arqueólogo Damian Evans e sua equipe realizaram um levantamento aéreo com LiDAR sobre 370 km² do noroeste cambojano.

A tecnologia emite pulsos de laser capazes de atravessar a vegetação e registrar a superfície do terreno com alto nível de precisão.

Novidades Ciência Tecnologia

Em cerca de 20 horas de voo, o método permitiu identificar formas do relevo e estruturas que permaneciam ocultas sob a floresta.

Os modelos digitais de terreno revelaram uma paisagem urbana mais extensa do que a sugerida apenas pelos monumentos conhecidos.

Além dos grandes templos, surgiram traçados regulares de ocupação, vias, diques, canais e evidências de bairros organizados.

O estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, em 2013, descreveu uma área planejada que articulava monumentos, infraestrutura hidráulica e assentamentos humanos em uma mesma lógica territorial.

A leitura do sítio arqueológico mudou a partir desses dados.

Em vez de um conjunto de santuários cercados por vegetação, Angkor passou a ser entendida como uma rede urbana de grande escala, espalhada por algo em torno de 1.000 km².

Essa dimensão territorial, associada à engenharia hídrica, sustenta a avaliação de parte da literatura especializada de que se tratava do maior complexo urbano do mundo pré-industrial.

Mahendraparvata e outras cidades do Império Khmer

Um dos resultados mais relevantes do levantamento foi a confirmação material de Mahendraparvata, centro político do início do período angkoriano associado ao reinado de Jayavarman II, consagrado em 802.

Angkor Wat, na região da cidade - Wikimedia Commons
Angkor Wat, na região da cidade – Wikimedia Commons

A cidade já era conhecida por inscrições e referências históricas, mas sua forma urbana permanecia indefinida.

Com o LiDAR, vieram à tona traçados de avenidas, templos e estruturas hidráulicas no planalto de Phnom Kulen, indicando um assentamento planejado em escala maior do que se supunha.

As descobertas se ampliaram nos anos seguintes.

Um novo levantamento, divulgado em 2015 e detalhado em pesquisas posteriores, expandiu o mapa arqueológico da região de Angkor e de outros centros khmer.

Em Preah Khan de Kompong Svay, complexo monumental situado a leste de Angkor, o sensoriamento remoto também identificou uma malha urbana medieval de grandes proporções.

Para os pesquisadores, o dado indica que a organização territorial e hidráulica dos khmer não se restringia à capital mais conhecida.

População de Angkor no auge do Império Khmer

O tamanho da população de Angkor permaneceu por décadas cercado de incerteza.

Em 2021, um estudo publicado em Science Advances combinou três décadas de escavações, dados de LiDAR e modelagem computacional para estimar a população da Grande Angkor ao longo do tempo.

Segundo os autores, no apogeu, por volta do século XIII, a região abrigava entre 700 mil e 900 mil habitantes.

Esse contingente ajuda a dimensionar a importância da infraestrutura hídrica.

Angkor dependia de um sistema capaz de armazenar, distribuir e redirecionar água entre os períodos de seca e de monções.

Ao mesmo tempo, a população não vivia concentrada apenas nas áreas monumentais de pedra.

Muitos moradores ocupavam casas de madeira e outros materiais perecíveis, construídas sobre montículos ao longo de canais, estradas e campos irrigados.

As moradias desapareceram com o tempo, mas os montes artificiais e os padrões de ocupação seguem visíveis nos modelos topográficos.

West Baray e a engenharia hidráulica de Angkor

No centro desse sistema estavam os barays, grandes reservatórios retangulares associados ao poder régio e ao funcionamento agrícola da região.

O mais conhecido deles, o West Baray, mede aproximadamente 7,8 km de comprimento por 2,1 km de largura.

West Baray
West Baray

Sua capacidade é estimada em cerca de 53 milhões de metros cúbicos, contidos por diques de terra que chegam a quase 12 metros de altura.

De acordo com os estudos citados na literatura arqueológica, trata-se de um dos maiores reservatórios escavados manualmente já registrados.

A água era conduzida por canais e redistribuída conforme a necessidade, sobretudo para a produção de arroz na planície ao redor da cidade.

Água Engarrafada

Pesquisas arqueológicas e geomorfológicas indicam que esse sistema não se limitava a um reservatório isolado.

Havia uma rede articulada de grandes barays, tanques menores, canais de alimentação e canais de drenagem, todos integrados à dinâmica urbana e agrícola.

Por isso, especialistas tratam Angkor não apenas como uma cidade com obras hidráulicas, mas como um espaço organizado em torno do controle da água.

Mudanças climáticas e o enfraquecimento de Angkor

Essa mesma infraestrutura, porém, mostrou sinais de vulnerabilidade quando o regime climático se alterou.

Em 2010, um estudo liderado por Brendan Buckley, publicado no PNAS, reconstruiu cerca de 759 anos de variação hidroclimática a partir dos anéis de crescimento de árvores no atual Vietnã.

Os dados apontaram duas megassecas prolongadas entre os séculos XIV e XV, interrompidas por períodos de chuvas muito intensas.

De acordo com os pesquisadores, essa alternância extrema pressionou a malha hídrica angkoriana.

Em vez de um colapso súbito, a hipótese trabalhada pelos estudos é a de um processo gradual de desgaste.

A seca prolongada reduzia a disponibilidade de água e comprometia a manutenção.

Depois, as monções excepcionais ampliavam erosão, assoreamento e rupturas em trechos críticos da rede.

Um estudo de 2018, também baseado em modelagem, indicou que cheias acima de determinados limiares poderiam provocar danos em cascata, com efeitos acumulativos sobre a infraestrutura urbana.

Esse quadro não explica sozinho a perda de centralidade de Angkor, mas é apontado pelos pesquisadores como um dos fatores que ajudam a entender o enfraquecimento da capital khmer no fim do período medieval.

Em 1431, forças de Ayutthaya tomaram Angkor em um contexto já marcado por mudanças políticas e ambientais.

Vídeo do YouTube

Patrimônio Mundial e legado arqueológico de Angkor

Angkor foi inscrita na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO em 1992.

O parque arqueológico cobre cerca de 400 km², enquanto a chamada Grande Angkor, considerada nas pesquisas sobre urbanização medieval, se estende para além do núcleo monumental mais visitado.

O próprio West Baray ainda armazena água, o que, segundo especialistas, indica a permanência de parte da funcionalidade dessa engenharia séculos depois de sua construção.

Água Engarrafada

Mais do que ampliar o conhecimento sobre ruínas sob a mata, o LiDAR alterou a escala com que Angkor passou a ser estudada.

As imagens obtidas pelo sensoriamento remoto mostraram que a área reunia templos, bairros, vias e estruturas hidráulicas distribuídos por uma paisagem profundamente modificada pela ação humana.

Sob a selva, havia uma infraestrutura voltada ao abastecimento, à produção agrícola e à conexão entre centros políticos do Império Khmer.

Deu em CPG

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista