FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado
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Guerras 03/03/2026 15:04

Como EUA e Irã se tornaram inimigos ao longo da história? Entenda em 5 pontos

Como EUA e Irã se tornaram inimigos ao longo da história? Entenda em 5 pontos

Apesar do atual conflito entre as nações, durante boa parte do século 20, Estados Unidos e Irã foram aliados estratégicos. Em 1977, o então presidente americano Jimmy Carter chegou a descrever o país persa como uma “ilha de estabilidade” no Oriente Médio.

Quase cinco décadas depois, a relação se transformou em uma das rivalidades mais tensas da geopolítica mundial.

Hoje, este confronto envolve disputas militares indiretas, acusações de terrorismo, sanções econômicas e temores sobre o programa nuclear iraniano. Mas, o que nem todos sabem é que essa hostilidade foi construída ao longo de décadas.

A rivalidade atual não surgiu de um único conflito, mas de diversas intervenções políticas, revoluções internas, disputas militares indiretas e desconfiança mútua. A seguir, veja cinco momentos decisivos que explicam como os dois países passaram de parceiros a adversários.

1. O golpe de 1953 e o início da desconfiança

Um dos marcos mais importantes da ruptura entre Estados Unidos e Irã ocorreu em 1953, quando serviços de inteligência americanos e britânicos apoiaram um golpe que derrubou o primeiro-ministro democraticamente eleito Mohammad Mossadegh.

A operação fortaleceu o poder do xá Mohammad Reza Pahlavi, monarca alinhado ao Ocidente. Durante décadas, o Irã se tornou um dos principais aliados americanos no Oriente Médio. Mas a intervenção estrangeira teve consequências duradouras.

“Os Estados Unidos passaram a ser vistos como cúmplices da supressão (de liberdades) da sociedade iraniana, o que explica o sentimento antiamericano dos revolucionários”, explicou Arshin Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, à rede britânica BBC.

O apoio dos EUA a um regime considerado autoritário por parte da população iraniana criou ressentimentos que ajudariam a desencadear a Revolução Islâmica décadas depois. Durante o governo do xá, o país passou por um rápido processo de modernização e ocidentalização, com reformas econômicas, expansão da educação e maior participação das mulheres na vida pública.

Ao mesmo tempo, opositores denunciavam desigualdade social, corrupção e repressão política, frequentemente associadas ao apoio americano ao regime.

2. A Revolução Islâmica de 1979

Até o fim dos anos 1970, poucos imaginavam que a monarquia iraniana seria derrubada. Mas uma onda de protestos envolvendo religiosos, estudantes, trabalhadores e grupos políticos levou à queda do xá.

O líder religioso Ruhollah Khomeini emergiu como figura central e estabeleceu a República Islâmica do Irã em 1979. Para a pesquisadora Muna Omran, especialista em Oriente Médio da Universidade Federal Fluminense (UFF), o movimento foi mais amplo do que sugere o nome pelo qual ficou conhecido.

Manifestação pró-xá organizada pelo Partido do Ressurgimento em Tabriz, abril de 1978 — Foto: Wikipedia
Manifestação pró-xá organizada pelo Partido do Ressurgimento em Tabriz, abril de 1978 — Foto: Wikipedia

“Quando você fala em revolução islâmica, está dizendo que quem faz a derrubada do regime foi apenas o clero e não foi isso que aconteceu. A derrubada do regime vai acontecer com o apoio dos comunistas, do clero, dos liberais, dos intelectuais”, disse Omran.

Khomeini construiu parte de sua legitimidade política em um discurso antiocidental e passou a chamar os Estados Unidos de “Grande Satã”, acusando o país de interferência no Irã. A nova república islâmica estabeleceu um sistema político no qual líderes religiosos passaram a supervisionar as instituições do Estado, criando um modelo híbrido que combina eleições com forte controle clerical.

Segundo o professor Maziyar Ghiabi, da Universidade de Exeter, na Inglaterra, a revolução teve impacto global: “Foi com a revolução islâmica que vimos o papel do islamismo e da política islamista se tornar central no enfrentamento do anti-imperialismo”, afirma.

3. A crise dos reféns e o rompimento definitivo

O ponto de ruptura total aconteceu em novembro de 1979, quando estudantes iranianos invadiram a embaixada americana em Teerã. Mais de 50 diplomatas e cidadãos americanos foram mantidos reféns por 444 dias.

Uma tentativa de resgate americana em 1980, chamada Operação Garra de Águia e autorizada pelo presidente Jimmy Carter, fracassou após problemas mecânicos, uma tempestade de areia e um acidente que matou oito militares americanos.

Os 52 reféns restantes só foram libertos em janeiro de 1981, no dia da posse do presidente Ronald Reagan. Esse episódio levou ao rompimento das relações diplomáticas e marcou o início das sanções econômicas americanas contra o Irã, muitas das quais permanecem até hoje.

A partir desse momento, a rivalidade passou a se manifestar também por meio de sanções econômicas, confrontos indiretos e crises diplomáticas recorrentes, consolidando a imagem mútua de inimigos estratégicos.

Nos anos seguintes, a tensão continuou. Na década de 1980, o escândalo Irã-Contras revelou que autoridades do governo Ronald Reagan venderam secretamente armas ao Irã na esperança de garantir a libertação de reféns americanos mantidos no Líbano pelo Hezbollah. Parte do dinheiro foi desviada para financiar os rebeldes Contras na Nicarágua.

Ainda no final da década de 1980, confrontos diretos ocorreram no Golfo Pérsico durante a guerra entre Irã e Iraque. Em 1987, os Estados Unidos passaram a escoltar petroleiros kuwaitianos na região. Em 1988, após um navio americano atingir uma mina iraniana, forças americanas atacaram plataformas petrolíferas iranianas na chamada Operação Louva-a-Deus.

4. Programa nuclear e corrida tecnológica

Outro fator central da rivalidade é o programa nuclear iraniano, que começou com apoio dos Estados Unidos. Na década de 1950, Washington ajudou Teerã a desenvolver tecnologia nuclear para fins civis dentro da iniciativa “Átomos para a Paz”.

Após a Revolução Islâmica, porém, o programa passou a ser visto com desconfiança pelo Ocidente. Os EUA suspeitam que o Irã tente desenvolver armas nucleares, acusação negada por Teerã.

A Agência Internacional de Energia Atômica afirma que o país do Oriente Médio realizou atividades ligadas ao desenvolvimento de um dispositivo nuclear até 2003, o que intensificou sanções e tensões militares.

O tema nuclear permanece no centro do conflito até hoje. Em 2015, Estados Unidos e outras potências mundiais assinaram um acordo com o Irã que limitava o enriquecimento de urânio em troca do alívio de sanções econômicas. O acordo previa inspeções internacionais mais rigorosas nas instalações nucleares iranianas.

Em 2018, porém, os Estados Unidos se retiraram do acordo e restabeleceram sanções econômicas contra o país, aumentando novamente a tensão entre Washington e Teerã.

5. A disputa por influência no Oriente Médio

Desde 1979, o Irã passou a expandir sua influência regional por meio do apoio a grupos armados aliados no Oriente Médio. Essa estratégia ficou conhecida como parte do chamado “Eixo da Resistência”, uma rede informal de aliados que se opõem à influência dos Estados Unidos e de Israel na região.

Esses grupos incluem organizações no Líbano, Gaza, Iraque, Síria e Iêmen, frequentemente em oposição aos interesses americanos e israelenses. Os Estados Unidos acusam o Irã de ser o principal patrocinador estatal do terrorismo no mundo, acusação rejeitada pelo governo iraniano.

Nos últimos anos, a tensão voltou a crescer. Em 2020, um ataque de drone americano matou o general Qassem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária iraniana, perto do aeroporto de Bagdá. Considerado um dos militares mais poderosos do Irã, sua morte levou o governo iraniano a prometer uma “dura retaliação”.

Dias depois, mísseis iranianos atingiram bases militares no Iraque que abrigavam tropas americanas, deixando mais de uma centena de soldados com lesões cerebrais.

Mais recentemente, ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra instalações nucleares iranianas marcaram uma nova fase de confrontos diretos entre os dois países. Embora Washington afirme que o objetivo seja impedir o desenvolvimento de armas nucleares, ainda há dúvidas sobre o alcance real dos danos causados ao programa iraniano.

Hoje, essa rivalidade continua sendo um dos principais focos de instabilidade no Oriente Médio e um exemplo de como alianças internacionais podem se transformar radicalmente ao longo da história.

Analistas apontam que a relação entre Estados Unidos e Irã mistura memória histórica, interesses estratégicos e disputas ideológicas, fatores que tornam qualquer tentativa de reconciliação especialmente difícil.

Deu em Galileu
Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


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