A nova pesquisa traz resultados que desafiam algumas percepções comuns sobre o conceito.
Os autores defendem que apenas uma pequena parcela dos homens cisgênero e heterossexuais se enquadra no perfil mais extremo de masculinidade tóxica hostil, e que o simples desejo de se sentir “viril” não significa, necessariamente, aderir a visões socialmente prejudiciais. Mas quantos homens de fato têm essa “toxicidade”?
Um conceito popular, mas pouco medido
O termo “masculinidade tóxica” surgiu nos anos 1980 para descrever como certos traços associados ao ideal masculino em sociedades ocidentais, como dominância, agressividade e repressão emocional, podem gerar impactos negativos tanto para a sociedade quanto para os próprios homens.
Com o tempo, porém, o conceito passou a ser usado de maneira ampla – e, muitas vezes, imprecisa. Daí a ideia de tratá-la via uma abordagem menos social e mais científica.
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A primeira tentativa de fazer essa quantificação ocorreu em 2024, quando pesquisadores da Universidade Estadual do Oregon publicaram na revista Behavioral Sciences uma escala inicial de masculinidade tóxica baseada em 28 perguntas aplicadas a estudantes universitários brancos nos Estados Unidos.
No novo esforço, liderado pela doutoranda em psicologia Deborah Hill Cone, da Universidade de Auckland (Nova Zelândia), ampliou essa abordagem, usando uma amostra maior e mais diversa.
Os investigadores analisaram dados do Estudo de Atitudes e Valores da Nova Zelândia de 2018–2019, que reuniu respostas de quase 50 mil pessoas – dentre os quais estavam cerca de 15 mil homens cis e heterossexuais.
Minoria tóxica extrema
Por meio da análise das respostas relacionadas a gênero, poder, preconceito e normas sociais, a equipe identificou oito indicadores centrais de masculinidade tóxica. Entre eles, destacam-se:
- Preconceito contra identidades sexuais diversas (LGBTQIAPN+fobia);
- Sexismo hostil (como a crença de que mulheres manipulam homens para obter poder);
- Sexismo benevolente (a ideia de que mulheres precisam ser protegidas e valorizadas pelos homens);
- Oposição à prevenção da violência doméstica; e
- Crença de que algumas hierarquias sociais são “naturais”.
Com base nos indicadores, os pesquisadores dividiram os participantes em cinco grupos distintos. O resultado mais chamativo é de que apenas 3,2% dos homens foram classificados como pertencentes ao grupo “tóxico hostil”, caracterizado por altos níveis de hostilidade, sexismo e visões hierárquicas rígidas da sociedade.
O maior grupo, representando 35,4% da amostra, foi considerado “atóxico”, com baixos níveis desses traços.
Entre os extremos, surgiram dois grupos moderados, diferenciados principalmente pela maior ou menor tolerância em relação a pessoas LGBTQIAPN+, e um grupo classificado como “tóxico benevolente”. Nesse último, os homens pontuavam alto em medidas de sexismo, mas não em hostilidade aberta.
Quem são os homens tóxicos?
Outro achado relevante desmonta um clichê popular. O perfil tóxico hostil não era dominado por homens ricos, poderosos ou associados ao estereótipo do “macho alfa”.
Pelo contrário, a probabilidade de integrar esse grupo era maior entre homens mais velhos, solteiros, desempregados, religiosos, pertencentes a minorias étnicas ou em situação de privação econômica, com menor escolaridade ou maior desregulação emocional.
“O típico ‘macho alfa’ rico da área de tecnologia ou o ‘valentão de fraternidade’ não apareciam no grupo hostil e tóxico”, afirma Cone à Nature. “Em sua maioria, esses indivíduos extremos são homens com poucos recursos financeiros, não homens dirigindo Lamborghinis.”
Também chama atenção dos autores o fato de que a “centralidade” de ser homem na identidade pessoal (ou seja, o quanto o gênero é importante para a autoimagem) não foi um fator decisivo para diferenciar os grupos. Muitos homens que valorizavam fortemente sua identidade masculina estavam em categorias pouco ou nada tóxicas.
“Na prática, isso significa que homens ‘machões’ não são necessariamente tóxicos. É possível, então, pensar na existência de uma masculinidade ‘positiva’”, resume Cone. Para ela, medir a masculinidade tóxica, não significa demonizar a masculinidade, mas compreendê-la melhor e, talvez, até criar espaço para versões menos destrutivas e mais humanas de ser homem.

