FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Trânsito 29/12/2025 05:10

Falar ao volante atrasa movimentos oculares e pode aumentar risco de acidentes, indica estudo

Falar ao volante atrasa movimentos oculares e pode aumentar risco de acidentes, indica estudo

Conversar enquanto dirige, mesmo pelo viva-voz, pode atrasar movimentos rápidos dos olhos, essenciais para identificar perigos na via. A constatação é de pesquisadores da Universidade de Saúde Fujita, que observaram que o ato de falar impõe uma carga cognitiva suficiente para atrasar respostas visuais básicas envolvidas na direção.

O estudo, publicado na revista científica PLOS ONE, avaliou 30 adultos saudáveis submetidos a tarefas de movimento ocular em três situações: falando, apenas ouvindo e sem tarefa adicional.

Os participantes deveriam deslocar o olhar o mais rápido possível para um alvo periférico apresentado em oito direções diferentes.

Os cientistas verificaram que, durante a fala, houve atrasos consistentes em três etapas: o tempo para iniciar o movimento ocular após o aparecimento do alvo, o tempo de movimento até o alvo e o tempo de estabilização do olhar.

Esses efeitos não apareceram nas condições de escuta ou controle, indicando que a produção de fala e a busca por respostas interfere diretamente nos mecanismos de controle do olhar.

Pequenos Atrasos, Grandes Riscos

O comportamento do olhar é central para a direção, já que cerca de 90% das informações necessárias ao motorista são adquiridas pela visão. Atrasos de milissegundos podem parecer pequenos, mas se acumulam em situações reais de trânsito, resultando em reconhecimento tardio de pedestres, obstáculos e outros veículos.

“Investigamos se o impacto da carga cognitiva relacionada à fala no comportamento do olhar varia dependendo da direção do movimento ocular”, explica Shintaro Uehara, professor associado, em comunicado.

Os participantes realizaram movimentos rápidos dos olhos do centro da tela para alvos periféricos em oito posições. Após fixar o olhar no ponto central por 1 segundo, o alvo aparecia e o participante deslocava o olhar até sobrepô-lo; após manter a fixação por 1 segundo, o alvo desaparecia e o ponto central reaparecia, iniciando um novo ciclo da tarefa. — Foto: PLOS ONE
Os participantes realizaram movimentos rápidos dos olhos do centro da tela para alvos periféricos em oito posições. Após fixar o olhar no ponto central por 1 segundo, o alvo aparecia e o participante deslocava o olhar até sobrepô-lo; após manter a fixação por 1 segundo, o alvo desaparecia e o ponto central reaparecia, iniciando um novo ciclo da tarefa. — Foto: PLOS ONE

Para ele, os resultados deixam claro que a interferência ocorre já no primeiro estágio do processamento visual.

“Esses resultados indicam que as demandas cognitivas associadas à fala interferem nos mecanismos neurais responsáveis por iniciar e controlar os movimentos oculares, que representam o primeiro estágio crítico do processamento visuomotor durante a direção”, conclui.

O impacto de atrasos nos movimentos oculares durante a direção ganha ainda mais relevância quando se leva em conta o alto número de acidentes de trânsito no Brasil.

Segundo dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), o país registrou mais de 1 milhão de acidentes de trânsito em 2022, que resultaram em mais de 33,8 mil mortes, cerca de 92 óbitos por dia, além de milhares de feridos e sequelados em consequência dos sinistros.

Esses números colocam a segurança no trânsito como um desafio de saúde pública contínuo no país, com um grande custo social e humano

Os pesquisadores ressaltam que falar ao volante não é a única causa para reações lentas no trânsito. Atenção dividida, cegueira por desatenção e sobrecarga mental também afetam o desempenho.

Ainda assim, o estudo mostra que a conversa interfere antes mesmo do reconhecimento consciente e da tomada de decisão, o que ajuda a explicar por que muitos motoristas não percebem a queda na própria performance ao dirigir e falar.

As conclusões reforçam recomendações de segurança já conhecidas e podem orientar políticas públicas e treinamentos de condutores. Para além do celular na mão, o alerta alcança as conversas aparentemente inofensivas ao volante: falar exige esforço cognitivo e esse esforço pode custar preciosos milissegundos na hora de evitar um acidente.

Deu em Galileu
Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista