Lixo 15/11/2025 11:08
Multas de até R$ 28 mil para quem joga entulho em terrenos ou vias públicas: prefeituras tratam descarte irregular como crime urbano e mudam a relação do brasileiro com os restos de obra

Multas para quem joga entulho em terrenos ou vias públicas? Nas grandes cidades brasileiras, o descarte irregular de entulho deixou de ser tratado como uma mera infração administrativa.
Entre 2023 e 2025, uma série de atualizações legais em capitais como São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador, Recife e Manaus — inaugurou um período de fiscalização mais dura, com multas que chegam a R$ 28 mil, possibilidade de apreensão de veículos.
A mudança acontece em um contexto de expansão acelerada do setor da construção civil, aumento do volume de reformas residenciais pós-pandemia e crescimento do número de pontos clandestinos de despejo registrados por prefeituras.
Em São Paulo, por exemplo, a Autoridade Municipal de Limpeza Urbana identificou mais de 4.000 focos de descarte ilegal apenas em 2024, número considerado crítico e capaz de custar milhões aos cofres públicos devido à necessidade de equipes dedicadas exclusivamente à limpeza desses locais.
Nos últimos dois anos, diversas capitais atualizaram seus marcos legais para permitir punições proporcionais ao impacto do descarte irregular. A legislação segue parâmetros técnicos que consideram:
Em Belo Horizonte, a Superintendência de Limpeza Urbana passou a aplicar multas de até R$ 28 mil, valor que pode aumentar caso haja transporte irregular com caminhões ou veículos não autorizados. Em São Paulo, o Código de Limpeza Urbana prevê penalidades que chegam a R$ 25 mil, além de permitir a apreensão de caminhões utilizados para descarte clandestino. Manaus, por sua vez, ampliou as multas para até R$ 18 mil, especialmente em áreas próximas a igarapés ou zonas de proteção ambiental.
Já em Recife, a legislação atualizada estabelece multa superior a R$ 20 mil para despejo de entulho em vias públicas. Curitiba, mantendo uma das fiscalizações mais rígidas do país, aplica multas que podem chegar a R$ 12,5 mil, especialmente quando o material abandonado oferece risco direto à população, como restos de construção contendo ferro exposto, telhas de amianto ou resíduos volumosos.
A ampliação das multas não responde apenas a um problema ambiental, mas também a uma necessidade de reorganização do espaço urbano.
O descarte de restos de obra gera bloqueios de ruas, danos às redes de drenagem, proliferação de pragas e aumento de enchentes — problemas que se tornaram recorrentes em cidades com alta densidade populacional e sistemas de escoamento já sobrecarregados.
Historicamente, o entulho particular sempre foi visto como responsabilidade exclusiva do proprietário ou da construtora que realiza a obra. Porém, o aumento do volume de resíduos gerados em pequenas reformas domésticas que representam mais de 60% do entulho urbano no Brasil ampliou significativamente o impacto desse material sobre o espaço público.
Desde 2023, municípios constataram que ignorar o descarte irregular passou a custar caro. O recolhimento de uma única caçamba de entulho abandonado pode ultrapassar R$ 2.500 em despesas operacionais.
Quando isso se repete centenas ou milhares de vezes ao longo do ano, o custo para a limpeza urbana atinge cifras milionárias, afetando diretamente o orçamento de manutenção de parques, ruas e serviços essenciais.
Com isso, muitas prefeituras passaram a adotar políticas de “tolerância zero” e intensificaram a fiscalização em corredores de tráfego, terrenos baldios, margens de córregos e áreas de grande fluxo de reformas.
Em Belo Horizonte e Recife, por exemplo, câmeras inteligentes e drones já são utilizados para identificar infratores durante o transporte e no momento do despejo. Em São Paulo, agentes da AMLURB atuam em equipes móveis, autuando infratores no flagrante e registrando o crime mesmo quando o responsável deixa o local rapidamente.
Um dos pontos centrais das políticas recentes é o foco nos veículos utilizados para transportar o entulho. Em muitas cidades, o carro, caminhonete ou caminhão envolvidos no despejo ilegal podem ser apreendidos imediatamente, tanto pelo município quanto pela polícia ambiental, dependendo da gravidade da infração e da área afetada.
Essa medida tem se mostrado eficaz porque grande parte do descarte clandestino é realizado de madrugada, em ruas pouco movimentadas ou em áreas afastadas. Quando o veículo é identificado pela placa ou por câmeras de monitoramento, o infrator é intimado e responde pela infração, mesmo sem ter sido abordado durante o flagrante.
Em Curitiba, por exemplo, a identificação do veículo é suficiente para formalizar o auto de infração. Em Salvador, o proprietário do caminhão pode ser responsabilizado mesmo se o transporte tiver sido contratado por terceiros.
O endurecimento das multas também vem de uma mudança cultural. Restos de obra doméstica — pedaços de gesso, pisos quebrados, massa seca, madeira, móveis velhos costumavam ser vistos como materiais de “baixo impacto”.
Hoje, municípios tratam o problema como questão de saúde pública, com impactos diretos na drenagem urbana, nas enchentes e na contaminação de áreas verdes.
Ao mesmo tempo, prefeituras têm criado alternativas legais para descarte correto:
A população, entretanto, ainda segue como protagonista das infrações. A maioria dos autos de infração lavrados em capitais se refere a pequenos volumes entre 100 kg e 400 kg descartados irregularmente por moradores ou prestadores de serviço que tentam evitar a contratação de caçambas regulamentadas.
O movimento observado entre 2023 e 2025 indica que a penalização do descarte irregular de entulho deve se tornar cada vez mais severa. Municípios médios, como Campinas, Goiânia e Joinville, já iniciaram revisões legais para aproximar suas multas das capitais. Além disso, estados começam a discutir legislações integradas que permitam penalizações conjuntas entre órgãos estaduais e municipais, especialmente em áreas ambientais sensíveis.
O brasileiro que faz reforma doméstica, portanto, passa a lidar com um novo cenário: restos de obra agora representam um risco financeiro real. Uma atitude antes vista como simples “jeitinho” hoje pode custar valores próximos ao de contratar uma equipe completa de reforma.
As cidades brasileiras, diante do aumento da pressão ambiental, da necessidade de manutenção urbana e da urgência de reduzir pontos críticos de entulho, estão transformando restos de material de construção em um dos temas centrais da gestão urbana moderna — com fiscalização dura, tecnologia e penalidades elevadas.
Deu em CPG

Descrição Jornalista
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