Sem categoria 27/05/2014 09:46
A baixaria como norma
Por Carlos Brickmann
É uma notícia fantástica, publicada num grande e importante jornal impresso: fala de um relatório da Polícia Federal sobre “as andanças de Fábio Luiz Lula da Silva”, filho do ex-presidente Lula, em Foz do Iguaçu; e os encontros que manteve com diretores da Itaipu Binacional, incluindo um amigo da família, Jorge Samek. Houve alguma irregularidade? O relatório não menciona crime algum.
Mas, na cópia a que “a reportagem teve acesso” (traduzindo: alguma autoridade com algum interesse no caso a vazou), há a indicação de “confidencial”.
O comentário, também citado pela reportagem, é de que o relatório foi classificado pela Polícia Federal como “caso de enriquecimento ilícito”. E de que se trata o tal enriquecimento ilícito? O relatório não diz. O vazamento, devidamente amplificado pelos meios de comunicação, também não diz – mas o tom acusatório do documento “a que a reportagem teve acesso” diz tudo o que não é dito.
Em resumo, é o nada transformado em tudo, graças não a informações, mas ao tom agressivo do texto. Fica aquela ideia de que “alguma coisa deve ter acontecido”, que “a imprensa sabe de alguma coisa a mais mas não pode publicar porque está censurada”, e bobagens do mesmo tipo. A notícia é falsa? Pode até não ser; mas, do jeito que está, não há qualquer justificativa para publicá-la.
E, por falar em nada transformado em tudo, as hordas virtuais de militantes do PT batem o tempo todo na tecla de que o candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, é “traficante de cocaína” (e “traficante da pesada”). Alguma prova, algum indício? Nenhum – apenas a afirmação.
Quando apertados, os militantes costumam falar no helicóptero pertencente à família Perrella, no qual foi apreendida quase meia tonelada de cocaína. E que é que tem Aécio a ver com Perrella? São amigos, explicam.
São no mínimo conhecidos, é verdade; com certeza se chamam pelo primeiro nome ou por apelidos, se tratam com cordialidade.
Mas Zezé Perrella, o chefe da família, pertence ao PDT, partido que apoia a presidente Dilma Rousseff. As mesmas ilações podem ser feitas de um lado ou de outro. E ambas, claro, são besteira, baixaria pura, coisa de gente ordinária que quer ganhar as eleições a qualquer custo.
Este colunista não conhece pessoalmente o filho de Lula, Fábio Luiz, nem Aécio, nem Dilma (e só sabia quem é Perrella por ter sido presidente do Cruzeiro). Mas acompanha política o suficiente para saber que, excetuando-se os fundamentalistas de Facebook, nada impede que adversários ideológicos tenham bom relacionamento pessoal.
Mauro Santayana, jornalista brilhante, de texto esplêndido, é esquerdista a tal ponto que foi aceito para trabalhar na Rádio Havana, como chefe do setor de transmissões em português; isso não o impediu de trabalhar com o governador mineiro Tancredo Neves, moderado até no seu radicalismo de centro, e de exercer grande papel nas articulações que o levaram a eleger-se presidente da República. Roberto Jefferson e Pedro Abrão, conservadores, sempre se entenderam muito bem com Marta Suplicy.
Isto é política: é preciso manter contatos e colocar o futuro acima de diferenças pessoais e/ou ideológicas, sem medo e sem ódio. Tancredo e Magalhães Pinto, adversários permanentes na política mineira, se uniram para formar um partido que pudesse servir de fiel da balança entre PMDB e PDS.
Adversários, sim; mas ambos moravam no mesmo e magnífico prédio à beira-mar, no Rio de Janeiro, sempre que estavam por lá, e juntos tomavam aquele café ralinho, adoçado com rapadura e acompanhado por bons pães de queijo, quentinhos. Ganhar eleições é importante, é a função primeira de um político e de um partido; mas sempre deixando a possibilidade de tornar-se uma oposição leal, quando se é derrotado.
O rancor é péssimo conselheiro.
Lembremos John McCain, ao reconhecer a vitória de seu rival Barack Obama: “Até agora ele era meu adversário. De agora em diante é meu presidente”.

Descrição Jornalista
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