Economia 29/08/2025 11:11
‘Trump vai descer a pancada’ no Brasil, diz economista: apoio à China, moeda dos BRICS, risco de sanções e fuga de capital assustam mercado e isolam país de aliados históricos
A relação entre Brasil e Estados Unidos vive uma fase de crescente tensão, marcada por atritos diplomáticos, tarifas mais altas e risco de sanções.
O tema foi discutido no primeiro episódio do podcast Risco Brasil, do canal Market Makers, que foi ao ar na noite desta quinta-feira (28) com a participação de Henrique Esteter, Alfredo Menezes, Roberto Reis e Fernando Ulrich.
Os especialistas apontaram que o país pode sofrer perdas significativas ao se afastar dos parceiros tradicionais do Ocidente e intensificar sua aproximação com o bloco dos BRICS.
Segundo Fernando Ulrich, sócio da Liberta Investimentos, a falta de diálogo entre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e a gestão de Donald Trump é um dos principais fatores que explicam o cenário atual.
“Desde a campanha eleitoral nos EUA, Lula fazia declarações duras contra Trump. Quando ele venceu e assumiu a presidência, essa interlocução nunca aconteceu. Pelo contrário, o Brasil passou a adotar um tom ainda mais crítico aos Estados Unidos e mais alinhado à China e à Rússia”, disse o economista.
O conflito comercial ganhou corpo quando o governo Trump elevou tarifas de importação sobre produtos brasileiros.
Em um primeiro momento, o impacto foi limitado, mas logo depois veio um aumento de até 50% nas tarifas.
Para Ulrich, o Brasil tem muito mais a perder nesse embate. “Nos Estados Unidos, esse assunto mal aparece nos jornais, é nota de rodapé. Já para o Brasil, significa risco real de sanções e perda de investimentos. Eles têm as cartas na mesa, nós não”, afirmou.
O especialista também alertou que, além das tarifas, o Brasil pode ser alvo de medidas secundárias ligadas à guerra na Ucrânia.
Ele lembrou que o país está entre os maiores compradores de óleo diesel da Rússia desde 2022, ao lado da China e da Índia, o que pode colocar Brasília na mira de novas restrições comerciais impostas por Washington.
Outro ponto polêmico do debate foi a proposta de criação de uma moeda única para os países do BRICS. Para Alfredo Menezes, fundador da Armor Capital, a ideia é impraticável e arriscada.
“Falar em moeda única para enfrentar o dólar é um absurdo, é como usar um palavrão no mercado internacional. Isso só aumenta a chance de mais sanções contra o Brasil. O Trump vai descer a pancada se esse assunto continuar sendo ventilado”, declarou.
Menezes argumentou que nenhuma economia significativa aceitaria manter reservas em uma moeda com alto risco geopolítico.
Ele destacou ainda que nem mesmo a China, um dos principais atores do bloco, teria interesse em aderir a esse modelo.
“Uma moeda de reserva precisa ter respaldo militar e estabilidade. Hoje, só os Estados Unidos oferecem isso”, concluiu.
Ulrich complementou afirmando que o Brasil não tem peso suficiente para desafiar a hegemonia do dólar.
“É um disparate acreditar que o país pode influenciar essa discussão. Lula parece usar esse embate de forma deliberada, como instrumento político contra Trump”, avaliou.
Os efeitos da crise já aparecem no mercado financeiro. Dados de uma pesquisa da XP Investimentos mostraram queda no apetite dos brasileiros por ativos de maior risco.
A intenção de aumentar posições em ações recuou de 34% em julho para 21% em agosto, enquanto a fatia de investidores que planeja reduzir exposição em renda variável subiu de 7% para 16% no mesmo período.
Henrique Esteter, economista e apresentador do podcast, destacou o peso psicológico da crise nas decisões financeiras.
“Às vezes esquecemos como o efeito das notícias negativas é importante. Para o investidor estrangeiro apostar no Brasil, é preciso transmitir confiança de que somos um país investível. Hoje, essa mensagem não está chegando”, afirmou.
O debate também abordou o impacto político do confronto. Roberto Reis, especialista em marketing político, avaliou que Lula se beneficia no curto prazo com o discurso de soberania, mas cria um risco elevado para o país no futuro.
“O presidente se tornou mais ideológico do que nos seus primeiros mandatos. Ele usa esse embate como narrativa, mas os custos podem ser altos. Do outro lado, Trump também gosta de palco e dificilmente recuará”, explicou.
Reis lembrou ainda que a América Latina terá uma série de eleições até 2027, o que aumenta o interesse dos EUA na região.
Para ele, o embate entre Lula e Trump pode influenciar diretamente esse tabuleiro.
“Nos Estados Unidos, há a percepção de que só Bolsonaro poderia derrotar Lula. Mas à medida que outros nomes surgirem, esse cálculo pode mudar. De qualquer forma, o cenário atual já coloca o Brasil como peça central em uma disputa geopolítica que vai além da economia”, afirmou.
Enquanto o Brasil busca reforçar laços com os BRICS, cresce a apreensão de investidores e analistas sobre os efeitos de longo prazo desse afastamento dos parceiros ocidentais.
Para os especialistas ouvidos no Risco Brasil, a insistência nessa estratégia pode custar caro em termos de credibilidade internacional, comércio e estabilidade política.
Deu em CPG

Descrição Jornalista
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