Mortes 13/04/2025 18:27
‘Eu ainda poderia viver mais 30 anos, mas quero morrer’; a permissão para eutanásia está indo longe demais no Canadá?

April Hubbard está sentada no palco do teatro onde planeja morrer ainda este ano.
A artista performática e burlesca de 39 anos não tem uma doença terminal, mas foi aprovada para morte assistida de acordo com as leis cada vez mais liberais do Canadá.
Aviso: esta reportagem contém detalhes e descrições que alguns leitores podem achar perturbadores
Ela está conversando com a BBC News no Bus Stop Theatre, um auditório íntimo com pouco menos de 100 lugares, na cidade de Halifax, na Nova Escócia, no leste do país.
Iluminada por um único holofote em um palco onde já se apresentou muitas vezes, ela diz que planeja morrer aqui “dentro de alguns meses” do iminente aniversário de 40 anos. Ela terá a companhia de um pequeno grupo de familiares e amigos.
April planeja estar em uma “cama grande e confortável” para o que ela chama de momento “comemorativo”, quando um profissional de saúde vai injetar uma dose letal em sua corrente sanguínea.
“Quero estar cercada pelas pessoas que amo, e ter todos me abraçando em um abraço gigante, e dar meu último suspiro, cercada de amor e apoio”, diz ela.
April nasceu com espinha bífida e, mais tarde, foi diagnosticada com tumores na base da coluna vertebral que, segundo ela, a deixaram com dores constantes e debilitantes.
Ela toma analgésicos opioides fortes há mais de 20 anos, e solicitou a Assistência Médica para Morrer (Maid, na sigla em inglês) em março de 2023. Embora ainda pudesse viver por décadas com sua condição, ela se qualificou para pôr fim à sua vida sete meses após a solicitação. Para pacientes terminais, é possível obter aprovação em 24 horas.
“Meu sofrimento e minha dor estão aumentando, e não tenho mais a qualidade de vida que me deixa feliz e realizada”, conta April. Toda vez que se move ou respira, ela diz que parece que os tecidos da base da sua coluna “estão sendo puxados como um elástico que se estica demais”, e que seus membros inferiores a deixam em agonia.
A BBC se encontrou com April no momento em que, a quase 4.800 quilômetros de distância, parlamentares estão analisando propostas para legalizar a morte assistida na Inglaterra e no País de Gales. Eles votaram, em princípio, a favor destas propostas em novembro de 2024, mas meses de análise detalhada se seguiram — e mais votações em ambas as Casas do Parlamento são necessárias antes que o projeto possa se tornar lei.
Nesta semana, a BBC testemunhou a morte de um homem na Califórnia, nos EUA, onde as leis de morte assistida são muito mais parecidas com as que estão sendo consideradas em Westminster, em Londres.
Os críticos dizem que o Canadá é um exemplo do efeito bola de neve — o que significa que, uma vez aprovada uma lei de morte assistida, ela inevitavelmente vai ampliar seu escopo e oferecer menos salvaguardas.
O Canadá tem hoje um dos sistemas mais liberais de morte assistida do mundo, semelhante ao que funciona na Holanda e na Bélgica. O país introduziu a Maid em 2016, inicialmente para adultos com doença física grave e incurável, que causa sofrimento intolerável, em estado terminal. Em 2021, a necessidade de ter uma doença terminal foi removida e, dentro de dois anos, o governo canadense planeja abrir a Maid para adultos apenas com transtorno mental, e nenhuma doença física.
Aqueles que se opõem à Maid dizem que a morte está passando a ser vista como uma opção de tratamento padrão para pessoas com deficiências e problemas de saúde complexos.
“É mais fácil no Canadá obter assistência médica para morrer do que obter apoio do governo para viver”, diz Andrew Gurza, consultor de conscientização sobre deficiências e amigo de April.
Andrew, que tem paralisia cerebral e usa cadeira de rodas, diz que respeita a decisão de April, mas afirma: “Se minha deficiência piorar e minhas necessidades de cuidados aumentarem, eu ainda gostaria de estar aqui. Saber que existe uma lei que diz que você pode facilmente acabar com sua vida — é realmente assustador.”
April Hubbard está sentada no palco do teatro onde planeja morrer ainda este ano.
A artista performática e burlesca de 39 anos não tem uma doença terminal, mas foi aprovada para morte assistida de acordo com as leis cada vez mais liberais do Canadá.
Aviso: esta reportagem contém detalhes e descrições que alguns leitores podem achar perturbadores
Ela está conversando com a BBC News no Bus Stop Theatre, um auditório íntimo com pouco menos de 100 lugares, na cidade de Halifax, na Nova Escócia, no leste do país.
Iluminada por um único holofote em um palco onde já se apresentou muitas vezes, ela diz que planeja morrer aqui “dentro de alguns meses” do iminente aniversário de 40 anos. Ela terá a companhia de um pequeno grupo de familiares e amigos.
April planeja estar em uma “cama grande e confortável” para o que ela chama de momento “comemorativo”, quando um profissional de saúde vai injetar uma dose letal em sua corrente sanguínea.
“Quero estar cercada pelas pessoas que amo, e ter todos me abraçando em um abraço gigante, e dar meu último suspiro, cercada de amor e apoio”, diz ela.
April nasceu com espinha bífida e, mais tarde, foi diagnosticada com tumores na base da coluna vertebral que, segundo ela, a deixaram com dores constantes e debilitantes.
Ela toma analgésicos opioides fortes há mais de 20 anos, e solicitou a Assistência Médica para Morrer (Maid, na sigla em inglês) em março de 2023. Embora ainda pudesse viver por décadas com sua condição, ela se qualificou para pôr fim à sua vida sete meses após a solicitação. Para pacientes terminais, é possível obter aprovação em 24 horas.
“Meu sofrimento e minha dor estão aumentando, e não tenho mais a qualidade de vida que me deixa feliz e realizada”, conta April. Toda vez que se move ou respira, ela diz que parece que os tecidos da base da sua coluna “estão sendo puxados como um elástico que se estica demais”, e que seus membros inferiores a deixam em agonia.
A BBC se encontrou com April no momento em que, a quase 4.800 quilômetros de distância, parlamentares estão analisando propostas para legalizar a morte assistida na Inglaterra e no País de Gales.
Eles votaram, em princípio, a favor destas propostas em novembro de 2024, mas meses de análise detalhada se seguiram — e mais votações em ambas as Casas do Parlamento são necessárias antes que o projeto possa se tornar lei.
Nesta semana, a BBC testemunhou a morte de um homem na Califórnia, nos EUA, onde as leis de morte assistida são muito mais parecidas com as que estão sendo consideradas em Westminster, em Londres.
Os críticos dizem que o Canadá é um exemplo do efeito bola de neve — o que significa que, uma vez aprovada uma lei de morte assistida, ela inevitavelmente vai ampliar seu escopo e oferecer menos salvaguardas.
O Canadá tem hoje um dos sistemas mais liberais de morte assistida do mundo, semelhante ao que funciona na Holanda e na Bélgica. O país introduziu a Maid em 2016, inicialmente para adultos com doença física grave e incurável, que causa sofrimento intolerável, em estado terminal. Em 2021, a necessidade de ter uma doença terminal foi removida e, dentro de dois anos, o governo canadense planeja abrir a Maid para adultos apenas com transtorno mental, e nenhuma doença física.
Aqueles que se opõem à Maid dizem que a morte está passando a ser vista como uma opção de tratamento padrão para pessoas com deficiências e problemas de saúde complexos.
“É mais fácil no Canadá obter assistência médica para morrer do que obter apoio do governo para viver”, diz Andrew Gurza, consultor de conscientização sobre deficiências e amigo de April.
Andrew, que tem paralisia cerebral e usa cadeira de rodas, diz que respeita a decisão de April, mas afirma: “Se minha deficiência piorar e minhas necessidades de cuidados aumentarem, eu ainda gostaria de estar aqui. Saber que existe uma lei que diz que você pode facilmente acabar com sua vida — é realmente assustador.”

“Quando as pessoas têm pensamentos suicidas, costumávamos atendê-las com terapia e assistência e, no caso de pessoas com doenças terminais e outras enfermidades, podíamos mitigar esse sofrimento e ajudá-las a ter uma vida melhor”, ela afirma. “No entanto, agora estamos vendo isso como um pedido apropriado para morrer e acabar com suas vidas muito rapidamente.”
Enquanto a reportagem da BBC estava na clínica de Coelho, fui apresentado a Vicki Whelan, uma enfermeira aposentada cuja mãe, Sharon Scribner, morreu em abril de 2023 com câncer de pulmão, aos 81 anos. Vicki contou à BBC que, nos últimos dias de sua mãe no hospital, a equipe médica ofereceu a ela repetidamente a opção da Maid, o que ela descreveu como um “papo de vendedor”.
A família, que é católica, solicitou a alta da mãe para que ela pudesse morrer em casa, onde Vicki diz que ela teve uma “morte linda e tranquila”. “Isso nos faz pensar que não podemos suportar, que não podemos sofrer um pouco e que, de alguma forma, agora eles decidiram que a morte precisa ser assistida, sendo que estamos morrendo há anos.”
“De repente, agora estamos dizendo às pessoas que essa é uma opção melhor. Esta é uma saída fácil, e acho que está simplesmente roubando a esperança das pessoas.”
O Canadá é, então, um exemplo do efeito bola de neve? Certamente é verdade que os critérios de elegibilidade foram ampliados drasticamente desde que a lei foi introduzida há nove anos — portanto, para os críticos, a resposta seria um enfático sim, e serviria de alerta para a Grã-Bretanha.
As leis de morte assistida do Canadá foram impulsionadas por decisões judiciais. A Suprema Corte do país instruiu o Parlamento de que a proibição da morte assistida violava a Carta Canadense de Direitos e Liberdades. A extensão da elegibilidade para aqueles que não estavam em estado terminal foi, em parte, uma resposta a outra decisão judicial.
Na Grã-Bretanha, os juízes das mais altas cortes têm dito repetidamente que qualquer potencial mudança na lei sobre a morte assistida é uma questão para o Parlamento, depois que pessoas como Tony Nicklinson, Diane Pretty e Noel Conway entraram com processos argumentando que a proibição geral do suicídio assistido violava seus direitos humanos.
April sabe que algumas pessoas podem olhar para ela, uma mulher jovem, e se perguntar por que ela morreria.
“Somos mestres em mascarar e não deixar que as pessoas vejam que estamos sofrendo”, diz ela. “Mas, na verdade, há dias em que eu simplesmente não consigo esconder, e há muitos dias em que não consigo levantar a cabeça do travesseiro e não consigo mais comer.”
“Não é assim que eu quero viver por mais 10, 20 ou 30 anos.”
Deu em Correio Braziliense

Descrição Jornalista
Ouvir 30 minutos de música pode aliviar ansiedade, diz estudo
01/05/2026 15:23