Só que, às vezes, o tiro pode sair pela culatra.
O “Museu do Fracasso” (em inglês, Museum of Failure) é prova disso. Seu acervo demonstra que a busca desenfreada por inovação pode levar a resultados inesperados, e como nem toda tentativa de criar um produto inovador pode ser bem-sucedida (muito pelo contrário).
O museu explora como o fracasso pode incentivar reflexões sobre o processo de desenvolvimento de novas mercadorias — e como os erros, muitas vezes, carregam um quê de humor.
Com um acervo de mais de 200 invenções comerciais malsucedidas, o Museu do Fracasso já realizou exposições em diversos países, começando em 2017 na cidade de Helsingborg, na Suécia, e chegando mais recentemente a Budapeste, na Hungria, em 2024. A seleção dos itens é feita pelo psicólogo Samuel West, que dedicou sua carreira ao estudo do comportamento no ambiente corporativo. Sua inspiração para a mostra surgiu enquanto explorava novas formas de estimular a inovação em empresas.
O museu agora conta com uma exposição online que conta com novas (des)invenções, como o Tesla Cybertruck de 2019, e produtos antigos, como a linha de refeições congeladas da Colgate (que você vê na imagem deste post), lançada em 1960.
O intuito é mostrar que, embora as falhas sejam frequentemente evitadas, elas são parte essencial do processo que leva ao sucesso.
“O ponto principal é que temos que aceitar o fracasso, porque geralmente são necessárias várias iterações antes de acertarmos as coisas — a maioria dos experimentos falha”, disse West, em entrevista ao guia Bulletin of the Atomic Scientists. “E o segundo ponto — com o qual tento ganhar dinheiro, com vários graus de sucesso — é enfatizar que as empresas, em particular, precisam aprender melhor com seus fracassos.”
A GALILEU selecionou 5 produtos que estão entre peças mais curiosas do acervo. Confira abaixo.
1. A máscara (de tortura) antienvelhecimento
Que tal recuperar a juventude usando uma máscara facial que dá microchoques no rosto? A Rejuvenique Facial Toning Mask foi lançada em 1999 com a estrela de TV Linda Evans como garota propaganda. O produto consistia em uma máscara facial com “26 almofadas de contato banhadas a ouro”, projetada para atingir “12 zonas faciais”. Ela emitia choques elétricos no rosto, com a promessa de rejuvenescer a pele. A máscara deveria ser usada por 15 minutos, de três a quatro vezes por semana, para chegar ao resultado esperado de uma aparência jovem e “mais bonita”. Veja abaixo.
Com uma aparência que mais parecia saída de um filme de terror, a Rejuvenique Facial Toning Mask foi um verdadeiro fracasso. O suposto inventor, George Springer, afirmava ser um ex-professor de dermatologia e praticante de medicina holística. No entanto, usuários relataram desconfortos como sensação de formigas mordendo, vermelhidão e dor.
A verdade é que o Rejuvenique nunca recebeu aprovação da FDA para ser comercializado e vendido como um rejuvenecedor. Além disso, a técnica usada pelo produto também nunca teve eficácia comprovada por estudos científicos. Esses fatores levaram uma vida curta: descontinuado no mesmo ano de seu lançamento, hoje a máscara ganha um lugar na coleção “O que eles estavam pensando?!” do acervo
2. A Pringles que causava diarreia
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No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, as dietas “sem carboidratos” e a contagem de calorias se tornaram uma tendência global. Com o crescimento dessa moda, as indústrias alimentícias começaram a criar produtos com baixo valor calórico, visando transmitir a ideia de uma vida mais saudável. Um exemplo disso foi o lançamento da Pringles Fat-Free, em 1996, que tinha como slogan “100% Satisfação, 0% Culpa”.
Com a promessa de ter 50% menos calorias do que uma batata Pringles clássica, o produto chamava atenção por suas impressionantes zero gramas de gordura. Isso foi possível graças ao Olestra, um aditivo criado em laboratório pelos pesquisadores da Procter & Gamble (P&G), responsável pela marca Pringles. A substância funcionava como um substituto das gorduras e óleos em alimentos industrializados.
Aprovada pela Food and Drug Administration (FDA), órgão regulamentador dos Estados Unidos, em 1996, a novidade passou a ser amplamente utilizada nos produtos da empresa. Contudo, alguns anos depois, relatos de cólicas estomacais e diarreia passaram a surgir em meio aos consumidores de produtos com o aditivo. Estudos mostraram que, por suas moléculas serem grandes demais para serem absorvidas pelo intestino, elas simplesmente passavam trato digestivo — resultando até em casos de “vazamento anal”. A batata foi descontinuada em 1999, e hoje o uso do Olestra é proibido no Reino Unido e Canadá.
3. O telefone digital que cobrava a cada e-mail
Lançado nos anos 2000 como um “telefone digital” e “máquina de responder”, o E-Mailer da empresa britânica de tecnologia Amstrad prometia ser uma solução prática para o mundo corporativo. O equipamento era um retrato de sua época: a popularização da internet abria infinitas oportunidades de conexão, e claro, de negócio. O equipamento foi uma tentativa inicial de combinar telefonia e acesso à internet, permitindo fazer chamadas, enviar SMS e responder e-mails.
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No entanto, os consumidores não previram que o uso da internet era tarifado — os usuários eram cobrados por minuto e por e-mail — resultando em faturas elevadas, além do custo inicial do dispositivo, que era de aproximadamente £99,99. Para complicar, as funcionalidades eram constantemente interrompidas por anúncios na tela, prejudicando significativamente a experiência do usuário.
Listado pelo jornal britânico The Telegraph como um dos maiores fracassos tecnológicos da história, o E-mailer foi comercializado até 2011. Mesmo com vendas insignificantes, críticas severas e grandes prejuízos para a empresa, Alan Sugar, proprietário da Amstrad, acreditava no potencial do produto. Ele chegou a lançar versões alternativas do E-Mailer, que se mostraram igualmente fracassadas ao seu antecessor.
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4. Google Glass, lembra dele?
O Google Glass foi lançado em 2012 com a promessa de ser uma revolução tecnológica. Equipado com as mais avançadas tecnologias da época, o produto era como “óculos inteligentes” com câmera embutida, controle por voz e uma tela inovadora nas lentes. Essas funcionalidades eram possibilitadas por uma memória, um processador, alto-falante e microfone, antenas bluetooth e Wi-Fi, uma bateria e até mesmo uma bússula. Tudo na haste direta do óculos.
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O entusiasmo era tanto que, em 2013, foi aberta uma pré-venda por US$ 1.500 para um grupo exclusivo de usuários, chamados de “glass explorers”. A tecnologia só chegou ao público geral em 2014, mas, naquele momento, surgiram intensos debates sobre o Google Glass. O problema era que, no lançamento inicial, o produto ainda não estava totalmente testado e aprimorado. Quando os primeiros consumidores e especialistas tiveram acesso ao dispositivo, logo apontaram falhas como a baixa duração da bateria e inúmeros bugs.
Mas o que realmente gerou preocupação entre os usuários foi a questão da privacidade, tanto em relação ao próprio utilizador quanto às pessoas que poderiam ser capturadas pela câmera do dispositivo. O uso do Google Glass passou a ser proibido em uma série de estabelecimentos como bares, cinemas e até mesmo em cassinos de Las Vegas. Isso fez com que o produto se tornasse uma “piada”, perdendo sua popularidade e consequentemente usabilidade em locais públicos. O óculos foi descontinuado em 2015.
5. O assistente IA que aquecia o coração (literalmente)
Uma das grandes tendências do mundo da tecnologia nos últimos anos são as inteligências artificiais. Buscando aproveitar essa onda, a empresa americana Humane lançou, em abril de 2024, o Humane AI Pin. O projeto contou com um investimento expressivo de US$ 240 milhões de investidores influentes do Vale do Silício, um dos maiores centros de inovação tecnológica do mundo.
O dispositivo é um pequeno broche magnético projetado para ser preso à roupa, geralmente na altura dos ombros. Ele funciona como um assistente virtual equipado com inteligência artificial, permitindo o envio de mensagens, pesquisas na web e captura de fotos. O aparelho ainda conta com uma espécie de laser que projeta texto na palma da mão do usuário, além de um alto-falante e conexão com rede móvel. O AI Pin passou a ser vendido como uma tecnologia que parecia substituir os smartphones.
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Contudo, a realidade foi bem diferente. Com falhas significativas tanto no hardware quanto no software, o produto chegou ao mercado sem que problemas críticos fossem corrigidos, sendo o mais grave o superaquecimento. A bateria tinha pouca autonomia, levando os criadores a desenvolverem um estojo portátil para ampliar sua duração. O problema é que alguns componentes da bateria apresentavam risco de incêndio. Além disso, o laser de projeção consumia muita energia, contribuindo ainda mais para o superaquecimento do pequeno dispositivo.
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Esse lançamento problemático foi resultado da postura dos líderes da Humane em relação à equipe de engenheiros e funcionários responsáveis pelo desenvolvimento do AI Pin.
A empresa esteve no centro de várias polêmicas, incluindo a demissão de mais de 10 funcionários. Segundo apuração do jornal The New York Times, esses profissionais teriam sido mandados embora após questionarem a viabilidade do dispositivo ser concluído no prazo esperado e expressarem preocupações sobre a periculosidade dos materiais utilizados.
Deu em Galileu


