Uncategorized 12/01/2025 15:17
‘Sou apenas um músico que não quer tocar sozinho’, diz Ringo Starr em entrevista exclusiva
"Amei o Brasil. O público fica de pé, dança. Os brasileiros vêm ao show para se divertir, não para ficar sentados escutando. No meu site há sempre alguém pedindo 'venha ao Brasil!'," disse, com mais uma gargalhada.

Logo que entrou na sala de reuniões de um hotel de Chelsea, bairro grã-fino do sul de Londres, Ringo Starr recebeu rápidas informações sobre o jornalista que o esperava para a entrevista.
Foi quando rapidamente enrolei a manga do meu pulôver para mostrar a tatuagem com as efígies dos Beatles que carrego no braço esquerdo.
“Hmm, acho que não vou falar com você”, disse o baterista dos Beatles ao mesmo tempo em que disparava uma senhora gargalhada.
Em uma fria manhã de segunda-feira em dezembro, Ringo recebeu a BBC News Brasil para uma entrevista promovendo o lançamento, dali a algumas semanas, de Look Up, seu 21º álbum solo de estúdio.

Crédito,Giovanni Bello/BBC Ringo inspeciona a tatuagem dos Beatles no braço do repórter
Eu tinha recebido a missão de conduzir a conversa dois dias antes, mantendo sigilo absoluto. Mas logo após sentar frente a frente com Ringo por 20 minutos enviei uma mensagem de WhatsApp para Daniel Lins, músico e publicitário radicado na Flórida com quem há quase 40 anos formara em Brasília a primeira de muitas bandas-tributo (extintas e ativas) aos quatro cabeludos de Liverpool.
“Olha aonde fomos parar, meu amigo”, escrevi, adicionando uma foto da entrevista tirada pelo produtor Giovanni Bello, quedocumentava os bastidores

Assista à entrevista exclusiva de Ringo Starr à BBC News Brasil
Aos 84 anos, mas aparentando duas décadas a menos na “quilometragem”, Ringo não dá mostras de que pretende parar de trabalhar em estúdio e ao vivo. Nos últimos cinco anos, ele lançou cinco álbuns do tipo “extended play” (de formato reduzido, contendo normalmente de quatro a seis faixas).
Em Look Up, fruto de uma parceria com o músico e produtor americano T-Bone Burnett, Ringo mais uma vez expressa sua paixão pela música country.
Seu caso de amor com o gênero vem desde a adolescência em uma Liverpool que nos anos 50 ainda se recuperava da destruição causada pela Segunda Guerra Mundial, mas cujo então fervilhante porto também ajudava a importar uma sucessão de sons vindos dos EUA. E transpirou em suas composições para os Beatles, incluindo a mais famosa, Octopus Garden.
“A gente [os Beatles] adorava a música americana. Era 90% do que gostávamos de ouvir e tocar quando começamos”, explicou Ringo.

Crédito,Getty Images Paul McCartney e Ringo Starr são os únicos ex-integrantes dos Beatles ainda vivos – ambos seguem gravando e tocando ao vivo
O baterista não tem um catálogo solo nem de longe tão impactante quanto os outros três ex-colegas de banda – John Lennon, Paul McCartney e George Harrison -, mas nem por isso deixou de “colocar a mão na massa” após o fim do grupo, em 1971. Hoje, ao contrário da maioria dos senhores octogenários ao redor do mundo, continua uma espécie de workaholic.
“Fazer música no estúdio e escrever música com outros músicos é o que me move na vida e me mantém ocupado. Uma das coisas que mais gosto é tocar. E não posso fazer isso sozinho com uma bateria”, justificou.
“Ao menos não estamos mais na pandemia.”
Mas o impacto do Covid-19 tornou Ringo ainda mais preocupado com germes e afins. A aversão data dos longos períodos que passou hospitalizado na infância por conta de uma tuberculose.
O coronavírus interrompeu sua turnê de 2022 e uma gripe cancelou shows no ano passado.
Jornalistas são delicadamente instruídos por assessores do Beatle a cumprimentá-lo “batendo cotovelos”.

Crédito,Getty Images A gente não conseguia escutar coisa alguma por causa da gritaria’, diz Ringo sobre os problemas enfrentados pelos Beatles durante suas apresentações a vivo
Mas a conversa com Ringo não poderia ter sido diferente de meu único encontro anterior com um dos “quatro de Liverpool” – uma entrevista coletiva com Paul McCartney em 2009, em que perguntas e assuntos eram combinados previamente e um seleto grupo fora escolhido para se dirigir a “Macca”.
Tirando um pedido quase encarecido da Universal para que não esquecêssemos de falar sobre Look Up, não houve qualquer restrição às inevitáveis questões relacionadas ao passado do baterista.

Crédito,Universal Music ‘Look Up’ é o 21º álbum solo de estúdio lançado por Ringo
Uma pergunta que sempre me interessara foi como ele lidou com a decisão dos Beatles de não mais se apresentar ao vivo, tomada em 1966 – e que só foi quebrada uma única vez no famoso Rooftop Concert, no teto de um prédio no centro de Londres, três anos mais tarde.
Os então quatro jovens adultos de Liverpool tinham cansado de vez da combinação letal para a saúde mental formada pela gritaria dos fãs, calendários abarrotados de shows e a falta de equipamento de som adequado para a apresentações em grandes arenas, como estádios.
Além disso, a complexidade sonora do trabalho do quarteto no estúdio a partir do álbum Revolver (1966) inviabilizou uma reprodução apropriada do material ao vivo.
Consequentemente, canções emblemáticas como Strawberry Fields Forever, Penny Lane e Here Comes the Sun, para dizer apenas algumas, jamais foram executadas ao vivo pelo grupo.
“É de certa forma uma frustração que nós nunca tenhamos tocado essas canções ao vivo,” Ringo admitiu.
“Mas [parar de se apresentar] foi uma decisão que tivermos de tomar.”

Crédito,Getty Images ‘Amei o Brasil. Os brasileiros vêm ao show para se divertir, não para ficar sentados escutando’, relembra sobre a experiência de ter tocado no país em 2011, 2013 e 2015
O baterista se refere especificamente ao desafio de manter o ritmo de apresentações em que não conseguia escutar os outros Beatles no palco.
“A adoração dos fãs era algo genial, mas na maior parte do tempo eu precisava ficar prestando atenção às costas John, Paul e George para saber em que parte da música estávamos.”
“A gente não conseguia ouvir coisa alguma por causa da gritaria.”
Fãs dos Beatles até podem escutar algumas dessas canções nos shows solo de Paul e Ringo, que seguem fazendo turnês.
Ringo, inclusive, já esteve três vezes no Brasil, a última delas em 2015. Se ainda não há notícias sobre nova visita, o baterista ao menos guarda boas lembranças – seja dos shows ou da interação com fãs brasileiros.
“Amei o Brasil. O público fica de pé, dança. Os brasileiros vêm ao show para se divertir, não para ficar sentados escutando. No meu site há sempre alguém pedindo ‘venha ao Brasil!’,” disse, com mais uma gargalhada.
Uma mostra do legado duradouro dos Beatles é a existência de uma infinidade de bandas-tributo que vão desde imitadores profissionais a artistas de fim de semana se apresentando no bar da esquina.
A banda é tema festivais famosos como Abbey Road on The River, realizado nos EUA, ou a International Beatleweek, que há quase 40 anos reúne periodicamente em Liverpool grupos todas as partes do mundo, do Brasil à Indonésia, passando por Uzbequistão e Japão.

Crédito,Getty Images Imitar os Beatles é fonte de renda para alguns
Tais grupos não raramente são formados músicos nascidos bem depois de John, Paul, George e Ringo terem seguido seus próprios caminhos em 1970.
“Eu adoro a ideia de que geração após geração está ouvindo nossas músicas. Temos bilhões de execuções nos serviços de streaming e isso tudo é bem maluco. Adoro, porque ainda fazemos parte de alguma coisa em vez estarmos guardados em um armário.”
O que gerações mais jovens também parecem fazer é apreciar os atributos musicais de Starr. Em mídias sociais não é raro encontrar vídeos celebrando a “pegada” de um baterista que por não exibir a virtuosidade de outros contemporâneos teve sua técnica por algumas vezes desprezada.
Não que a tal redenção pareça ser algo importante para Ringo.
“Apenas faço meu trabalho,” diz Starr.
“Acho que o que ajudou foram as remasterizações dos discos dos Beatles, que trouxeram mais à tona o som da bateria. Eu sou apenas um músico que não quer tocar sozinho”, disse, com um sorriso.

Crédito,Getty Images A passagem do tempo parece ter feito Ringo ser mais apreciado tecnicamente
Talvez seja apenas sabedoria adquirida por quem nasceu e viveu em tempos turbulentos que incluíram o assassinato de John Lennon, em 1980, e a morte de George Harrison, de câncer, em 2001.
O baterista também enfrentou o alcoolismo e a dependência química, que deixou para trás nos anos 90 – o que finalmente deu um toque de veracidade aos versos de No No Song, a canção de 1974 em que Ringo afirma, de forma bem-humorada, ter “dito não” a várias substâncias lícitas e ilícitas.
(No Brasil, No No Song ganhou uma ainda mais hilária versão em português por Raul Seixas.)
Antes de deixar a sala e mais uma vez tocar cotovelos, perguntei a Ringo se ele tinha alguma dica para quem está no fundo de algum poço.
A resposta veio desprovida de pretensão, assim como suas “levadas” de bateria.
“É uma pergunta difícil porque não sei o que as pessoas passaram. Mas você precisa ser honesto e aceitar que alguns dias serão ruins. No meu caso, sou feliz quando estou batendo nos tambores”, concluiu.
Deu em BBC

Descrição Jornalista
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