Cientistas descobrem o que fez Terra tremer sem parar por 9 dias no ano passado - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Terra 13/09/2024 14:36

Cientistas descobrem o que fez Terra tremer sem parar por 9 dias no ano passado

Uma avalanche em 2023 na Groenlândia desencadeou um abalo sísmico que pode ser captado em diferentes partes do mundo, e ouvido a 3.300 km de distância. Entenda o que está por trás do evento

Cientistas descobrem o que fez Terra tremer sem parar por 9 dias no ano passado

Em 16 de setembro de 2023, uma avalanche colossal atingiu o leste da Groenlândia.

O gelo foi tanto que, ao despencar nas águas profundas de um fiorde, ele gerou um megatsunami, que chegou a 200 metros de altura.

O impacto foi detectado por sismógrafos em todo o mundo, que registraram tremores durante 9 dias consecutivos. No entanto, quando a marinha dinamarquesa investigou o local, três dias depois, não encontrou nada.

Esse enigmático evento chamou a atenção de 68 cientistas de 15 diferentes instituições de pesquisa do planeta, que se dedicaram a encontrar uma explicação para o ocorrido.

Ontem (12), em um artigo na revista Science, eles revelaram sua descoberta: um fenômeno natural raro, que pulsa ritmicamente na superfície da Terra como um tambor.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores realizaram diversos experimentos e testaram múltiplas hipóteses, começando por coletar o máximo de dados possíveis sobre a avalanche.

A partir de imagens de satélite, estima-se que a quantidade de gelo desprendida da montanha perto do chamado Fiorde Dickson, onde a avalanche aconteceu, foi aproximadamente dez vezes maior que a Grande Pirâmide de Gizé.

Ao desmoronar, o gelo colidiu com uma geleira situada em uma ravina, destruindo-a e lançando seus fragmentos em direção a o fiorde — uma enseada de mar entre altas montanhas rochosas — a mais de 160 km/h. Essa velocidade e força causaram um megatsunami.

O antes (esquerda) e o depois (direita) do fiorde. É possível ver a névoa deixada pela avalanche — Foto: Søren Rysgaard/Danish army
O antes (esquerda) e o depois (direita) do fiorde. É possível ver a névoa deixada pela avalanche — Foto: Søren Rysgaard/Danish army
O impacto gerou um som que foi ouvido a mais de 3.300 km de distância, alcançando até a Rússia, acompanhado de abalos sísmicos.

Um fenômeno poderoso, mas imperceptível

Foi nesse ponto que as anomalias começaram a chamar a atenção dos cientistas. Sismólogos captaram um zumbido em uma frequência baixa.

Dias se passavam, mas o som persistia, surpreendendo pesquisadores ao redor do mundo, que se reuniam em chats online para tentar entender o fenômeno.

Avisada pelos cientistas, a marinha dinamarquesa foi inspecionar o fiorde três dias após o colapso. No entanto, tudo parecia normal.

“Ainda me espanta que o sinal sísmico continuasse circulando pelo planeta enquanto eles estavam lá, sem detectar qualquer perturbação evidente”, comentou Stephen Hicks, um sismólogo do University College de Londres, em entrevista à revista Quanta.

Para investigar o ocorrido, os pesquisadores criaram um modelo computacional para simular a avalanche e o megatsunami, testando diferentes hipóteses.

Eles descobriram que, ao cair no fiorde, a gigantesca massa de gelo gerou uma onda cuja energia não pôde se dissipar completamente.

Assim, a onda ficou se movendo de um lado para o outro por nove dias, lentamente escapando para o mar aberto. “Nunca antes observamos um movimento de água tão extenso por tanto tempo”, afirmou Hicks, em entrevista à BBC News.

Mas como a marinha não conseguiu avistar um fenômeno tão poderoso como esse? A explicação está na extensão do fiorde, que possui 2,7 km.

A energia da onda ficou oscilando de um lado para o outro, completando um ciclo a cada 45 segundos.

Após três dias, sua altura já havia reduzido para alguns centímetros.

Além disso, os pesquisadores descobriram outra importante informação: o derretimento do gelo, resultado do aquecimento global, foi o principal fator responsável pela avalanche.

“Aquela geleira estava sustentando esta montanha, e ela ficou tão fina que simplesmente parou de sustentá-la”, disse Hicks. “Isso mostra como a mudança climática está agora impactando essas áreas”.

Embora pareça extremo, grandes avalanches como essa estão se tornando cada vez mais frequentes por conta do desgelo dos árticos.

“Estamos testemunhando um aumento de deslizamentos de terra gigantescos, causadores de tsunamis, principalmente na Groenlândia”, disse Kristian Svennevig, do National Geological Surveys for Denmark and Greenland (GEUS), à BBC News.

 “Embora o evento do Fiorde Dickson por si só não confirme essa tendência, sua escala sem precedentes ressalta a necessidade de fazer mais pesquisas.”

Deu em Galileu

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista