Artes 26/11/2023 11:00
Por que os museus europeus estão devolvendo as artes que roubaram?
Dados do Condor Ferries indicam que em média 30 milhões de turistas visitam Londres, no Reino Unido, todos os anos, sendo que aproximadamente 6 milhões delas têm como parada turística obrigatória o famoso Museu Britânico.

Dados do Condor Ferries indicam que em média 30 milhões de turistas visitam Londres, no Reino Unido, todos os anos, sendo que aproximadamente 6 milhões delas têm como parada turística obrigatória o famoso Museu Britânico.
Considerado uma das atrações mais populares da cidade, o museu público mais antigo do mundo, fundado em 1753, possui um acervo de 13 milhões de peças, com 70 mil em exposição.
Lá, é possível encontrar a historicamente famosa coleção egípcia de múmias, a Pedra de Roseta, a Coleção Grega e Romana, contendo o vaso Portland e as controversas Esculturas do Partenon.
Também complementam o acervo as coleções asiáticas, com muitas obras de arte hindus e budistas, cerâmica chinesa e xilogravuras japonesas, bem como os mundialmente famosos relevos assírios de Nínive e dois touros de cabeça humana do século VII a.C. de Khorsabad.
Sem falar no que guarda a Coleção Africana, com os famosos Bronzes do Benin, subtraído pelos britânicos em meados de 1897.
(Fonte: Chris Ware/Keystone Features/Hulton Archive/Getty Images)
Mais recentemente, em outubro de 2021, o Jesus College, de Cambridge, devolveu uma escultura de bronze de um galo à Nigéria, tornando-se a primeira instituição do Reino Unido a devolver um dos famosos bronzes do Benin, ex-colônia francesa que faz fronteira com a Nigéria.
A Universidade de Aberdeen, na Escócia, seguiu o movimento e entregou um bronze da cabeça de um rei africano.
O Museu Quai Branly, em Paris, devolveu 26 artefatos ao Benin, de onde foram roubados em 1892.
E isso foi apenas parte do esforço de ativistas e autoridades de países colonizados pelos europeus para reaver seu patrimônio histórico. Mas por que os museus europeus devem devolver a arte e objetos roubados?
(Fonte: Leon Neal/Getty Images)Arte e artefatos roubados nos impedem de entender como a colonização afetou de maneira profunda algumas nações, porque muitos países ainda não reconheceram o mal feito durante esse período.
E estamos falando desde quando os antigos romanos depenaram a cidade etrusca de Veios durante sua primeira conquista, em 396 a.C., até quando as tropas britânicas levaram obras de arte da África no final do século XIX.
Recentemente, vários museus e instituições culturais no Ocidente têm unido esforços para devolver esses artefatos roubados como forma de reparar historicamente parte do dano cometido pelo colonialismo.
Afinal, esses objetos, muitas vezes retirados violentamente de seu local de origem, enriquecem seus antigos ladrões com uma glamurização e falsa versão da história ao serem exibidos em instituições renomadas.
“Dentro de cinco anos, quero que existam condições para o regresso temporário ou permanente da herança africana na África. Essa será uma das minhas prioridades”, declarou o político francês.
(Fonte: Dan Kitwood/Getty Images)
Para os críticos e curadores, devolver o patrimônio cultural é apenas parte da reparação histórica que os europeus precisam fazer, uma vez que as coleções foram roubadas dos países invadidos e colonizados.
Também é preciso que a história de como esses objetos chegaram ali seja contada aos visitantes de maneira honesta.
Desfazer o conceito de confiar no lado vencedor da guerra nunca se fez tão necessário. Um bom exemplo disso é que as forças britânicas dizimaram a resistência das tribos à anexação do Chibok, na Nigéria, em 1907, e as flechas lançadas pelos nativos foram enviadas para o Museu Britânico, onde a curadoria não mencionou o motivo de serem tão importantes.
Elas foram apenas categorizadas como “patrimônio histórico das tribos selvagens do Chibok”.
A administração dos museus ocidentais também é acusada de participar de uma espécie de abuso de poder.
A diretora da Open Society Initiative for West Africa (OSIWA), Ayisha Osori disse que os museus foram dispositivos que ajudaram a moldar o colonialismo, as histórias de conquistas e a legitimação delas.
(Fonte: Getty Images)Em seção de comentários de veículos de imprensa na internet, existe quase um consenso de que o patrimônio cultural de muitos países colonizados deve ser mantido sob tutela dos museus europeus devido à crença predominante de que o melhor lugar para ele é nessas instituições.
No entanto, essa ideia faz parte da longa “narrativa de resgate” pregada, inclusive, pelos próprios europeus, que acreditam que têm os recursos financeiros, a tecnologia e o conhecimento necessário para conservar da melhor maneira possível os objetos roubados. É discutido pelos críticos que isso não é necessariamente verdade.
“Se olharmos para algumas catástrofes recentes, por exemplo, que Notre Dame, em Paris, queimou devido a um acidente, vemos que o Ocidente não é perfeito de forma alguma”, disse Patty Gerstenblith, diretora do Centro de Arte, Museu e Direito do Patrimônio Cultural da Universidade DePaul, em Chicago, à CBC.
Notre Dame em chamas. (Fonte: Veronique de Viguerie/Getty Images)
Nesse caso, a especialista ainda pontua que outros desastres e acidentes também danificaram coleções de vários tipos nos últimos anos, e que isso deve se tornar algo cada vez mais recorrente com as mudanças climáticas.
Enquanto isso, os defensores da narrativa de resgate sustentam que os artefatos devem permanecer na Europa porque seus países de origem são mais propensos a conflitos armados e violência, sendo que, em muitos casos, essa violência foi infligida a essas partes pelas potências ocidentais.
“Você pode dizer que as coisas nos museus do Iraque foram saqueadas em 2003, mas isso foi precipitado por uma invasão liderada pelos EUA”, disse ela.
“É criando essa situação econômica em que as pessoas recorrem ao saque como forma de ganhar a vida. Portanto, não faz sentido culpá-los e dizer: ‘Ah, essas partes do mundo sempre foram sujeitas a isso’, enquanto nem mesmo a Europa não está isenta desse tipo de conflito armado e violência.”

Descrição Jornalista
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