Ciência 05/04/2025 12:07
Saudade pode ajudar a tratar depressão, revela estudo com participação de brasileiro
Quando falamos de saudade, ela pode despertar emoções diversas. Para algumas pessoas, está associada à ausência e à distância, enquanto para outras, remete à nostalgia e a boas lembranças.
Um estudo publicado por um neurocientista brasileiro com pesquisadores do King’s College London, do Reino Unido, demonstrou, de forma inédita, o potencial desse sentimento como um recurso para amenizar sintomas em pacientes com depressão.
Essa compreensão é essencial porque, à primeira vista, a ideia de utilizar a saudade como aliada no tratamento de sintomas depressivos pode soar inusitada, justamente por sua associação à carga emocional melancólica.
No entanto, a saudade possui uma natureza ambígua: ela também pode ser descrita como uma forma de amor por algo do passado. Seja em músicas, livros ou poesias, pode invocar nostalgia e admiração, além de trazer lembranças de tempos felizes.
“A saudade pode ser analisada como um sentimento que traz senso de valorização sobre eventos e pessoas e que ajuda o paciente a se reconectar com memórias significativas para sua vida”, explica o pesquisador carioca Jorge Moll Neto, idealizador do IDOR Ciência Pioneira, em entrevista à GALILEU.
“Embora não seja descrita como puramente positiva, a saudade, quando observada nessa outra perspectiva, pode ter efeitos positivos importantes de estabilização emocional e reforço do significado da vida”.
Do ponto de vista da psicologia, a saudade é um sentimento complexo, ligado às emoções de pertencimento, à família e ao senso de significado. Apesar de sua complexidade, ainda é um tema pouco explorado no campo – e foi justamente a lacuna de pesquisas, aliada a observações clínicas, que levou os pesquisadores a investigá-la mais a fundo.
A equipe de pesquisadores estudou 39 indivíduos que apresentavam sentimentos intensos e recorrentes de autocrítica e autoculpabilização. Esses sintomas são comuns em quadros de depressão, frequentemente acompanhados por baixa autoestima e sensação de desesperança. No entanto, o estudo considerou participantes sem um diagnóstico clínico formal.
“Pessoas muito autocríticas tendem a se culpar de forma intensa por falhas e dificuldades”, conta Neto. “Isso acaba por alimentar sentimentos de tristeza, inadequação e desesperança, gerando um ciclo de desvalorização pessoal. E explica também uma vulnerabilidade maior à depressão. A proposta abordada no estudo visava induzir e transformar esses sentimentos”.
A pesquisa recrutou voluntários a partir de uma extensa lista de candidatos selecionados por meio de anúncios online, listas de e-mails e redes sociais. Os participantes foram convidados a produzir um vídeo de 10 minutos usando fotos, vídeos e músicas.
Na primeira parte da dinâmica, eles deveriam evocar sentimentos de autocrítica e tristeza; na segunda, explorar a saudade por meio de memórias afetivas e significativas do passado. Em seguida, os participantes foram instruídos a assistir ao vídeo diariamente ao longo de uma semana, refletindo sobre seus sentimentos.
Os pesquisadores então aplicaram formulários e realizaram acompanhamentos online. O objetivo era avaliar, por meio de pontuações, a frequência de pensamentos autocríticos e a presença de possíveis sintomas depressivos. Com isso, os experts observaram uma redução significativa desses pensamentos uma semana após o início do experimento.
Dessa forma, o resultado indicou que o incentivo a uma “transformação” emocional para a saudade pode ter efeitos positivos na saúde mental. Para os pesquisadores, como essa emoção era apresentada no final do vídeo, ela ajudava a modificar o tom emocional do material, guiando a reflexão dos participantes de forma mais leve e menos negativa.
Durante suas discussões, os cientistas levantaram a hipótese de que a saudade poderia ser utilizada como um recurso emocional na psicoterapia. Essa possibilidade ganha ainda mais relevância diante do cenário preocupante da saúde mental no Brasil: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o país possui a maior taxa de depressão da América Latina, com aproximadamente 11,7 milhões de pessoas diagnosticadas com a doença.
Após a pandemia de Covid-19, a saúde mental tornou-se uma questão de relevância nacional. O Brasil figura desde então entre as últimas posições no ranking global de bem-estar mental, com um índice alarmante de 34% da população relatando angústia, conforme apontado pelo relatório do Global Mind Project.
Diante desse contexto, novas abordagens e possibilidades de tratamento são essenciais para auxiliar tanto profissionais quanto pacientes. Em muitos casos, seja por razões pessoais ou desconhecidas, pessoas com depressão podem não se adaptar aos tratamentos psicológicos convencionais, motivando a invenção de novas técnicas e métodos.
“O estudo que fizemos foi uma das primeiras tentativas de usar a saudade como intervenção terapêutica estruturada”, considera Moll, ressaltando que a proposta mostrou alta adesão e segurança, sem relatos de eventos adversos. Pelo contrário: os resultados salientam a importância de estudos maiores, como ensaios clínicos randomizados com pacientes diagnosticados com depressão. “Isso mostra que a saudade pode ser mais explorada por seu potencial terapêutico, como recurso culturalmente próximo das pessoas”, conclui.
Descrição Jornalista
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