Jornalismo 01/08/2022 18:00

Nos tempos de repórter e das cabeleiras do apocalipse

Redescobri algumas jóias, nos tempos de cabeleira vasta (e põe vasta nisso), de andarilho atrás das notícias, de desconfiar de tudo que lhe diziam.

Hoje, numa alteração de horários no trabalho, sobrou um tempo para vasculhar velhos álbuns de fotografias.

Na verdade eu queria mesmo encontrar uma foto específica ainda nos tempos de repórter.

Não achei.

A busca continua.

Redescobri algumas jóias, nos tempos de cabeleira vasta (e põe vasta nisso), de andarilho atrás das notícias, de desconfiar de tudo que lhe diziam e apresentavam.

Repórter é, por natureza, um negacionista. Não no besta sentido de hoje.

Repórter já deve nascer desacreditando, em princípio, em tudo.

Senão vira crente e perde o faro.

A foto aí de cima foi uma entrevista com o gênio Paulinho da Viola, no saguão do Hotel dos Reis Magos, em 1975 (acho).

Pelo gesto ele parecia me indicar para onde iam o samba e a MPB.

Eu, evidentemente, aceitei os argumentos do craque que, para o bem do país, continua brilhando.

Obrigado, Paulinho.

Essa outra é de assustar crianças. E adultos.

Eu e o repórter Edilson Lima (Kingsbury).

Eu do Dário e ele da Tribuna.

Os dois intrépidos cabeludos estavam aguardando a chegada do então Presidente da Volkswagen do Brasil, Wolfgang Sauer.

Ele veio ao RN e o Governo lhe ofereceu um almoço chique no então longínquo Carne de Sol do Lira, nas Rocas.

As duas cabeleiras – acho que elas andavam sozinhas e a gente era isso e um pouco de osso –  chegaram cedo, sem bebidas.

Água na mesa. Bem disciplinados. As super perucas já anunciavam a irreverência da época.

As roupas também não estavam condizentes com exigido pelo cerimonial do evento.

E daí. A gente só queria perguntar.

Quando o alemão entrou não viu mesas, cadeiras, garçom, o Lyra atrás do balcão.

Não viu nada.

Mas certamente olhou firme para as duas jubas e deve ter pensado: “é aqui mesmo o almoço? Não pode ser. O que danado é aquilo naquela mesa?

Aliás, por falar em Alemanha, uma abstração: há algum tempo vi na TV um show de bailarinos dançando e cantando o maravilhoso Feira de Mangaio, de Sivuca e Glorinha Gadelha. No patamar da Catedral de Colônia.

Até hoje não sei como o alemão traduziu “tomar uma bicada com lambú assada”.

Voltando ao almoço com as duas cabeleiras do apocalipse.

A cerimônia das duas crinas diante do diretor da gigante alemã era nenhuma.

Elas negavam o almoço protocolar, cheio de salamaleques e rififis dos naturais interesses empresariais e políticos.

Juro que nenhum dos dois pensou em comprar uma brilhantina ou um fixador de cabelo.

Naquele tempo era laquê, acho.

Vai assim mesmo.

Eles que se incomodem.

A gente só não subiu na mesa e dançou como Hair.

Teria sido um arremate marcante.

Ricardo Rosado de Holanda



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