Alimentos 03/03/2022 09:20

Existem outras fontes de importação de fertilizantes, caso o comércio com a Rússia seja interrompido?

Com relação às exportações russas, mesmo diante dos esforços de Bolsonaro para manter as boas relações com Putin, garantindo a continuidade dos fluxos comerciais entre os países, há dúvidas se a Rússia conseguirá manter as entregas de seus produtos.

Na terça-feira (1º/03), o embaixador de Belarus no Brasil, Sergey Lukashevich, disse que seu país foi obrigado a suspender as vendas de fertilizantes para o Brasil porque o escoamento foi proibido pela Lituânia, que fechou fronteiras.

Com relação às exportações russas, mesmo diante dos esforços de Bolsonaro para manter as boas relações com Putin, garantindo a continuidade dos fluxos comerciais entre os países, há dúvidas se a Rússia conseguirá manter as entregas de seus produtos.

Isso porque, com o endurecimento das sanções financeiras contra o país, cujos bancos foram bloqueados do sistema de transferências internacionais Swift, ainda não está claro se os compradores internacionais conseguirão fazer os pagamentos pelas importações.

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, tem repetido que o Brasil tem opções para importar fertilizantes, citando como exemplos Irã, Canadá e Marrocos. Mas especialistas do setor avaliam que a situação não é tão simples e que a gravidade do cenário varia de insumo a insumo.

Lagos de evaporação em mina de potássio de Utah, nos Estados Unidos
Legenda da foto, Lagos de evaporação em mina de potássio de Utah, nos Estados Unidos

Segundo Marcelo Mello, da StoneX, o quadro mais preocupante é o do potássio, que tem Canadá, Belarus e Rússia como maiores produtores, com fatias de 40% e 20% do mercado cada, respectivamente. Ou seja, os três países somam quase 80% da oferta mundial.

Belarus já vinha sofrendo sanções desde o segundo semestre do ano passado, com EUA, União Europeia e Reino Unido respondendo a ataques do presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, aos direitos humanos de imigrantes.

Assim, o mercado, que já vinha apertado pelas restrições a Belarus, está agora em alerta máximo.

“Tudo leva a crer que as sanções são fortíssimas e tendem a inviabilizar a exportação russa. Um cenário onde Belarus já estava praticamente fora e agora o mercado perde os 20% da Rússia é impraticável”, avalia Mello.

“Não é mais uma questão de ‘talvez vamos ter uma crise de abastecimento’. Nós certamente vamos ter uma crise. Certamente haverá desabastecimento, não só no Brasil, mas mundial”, afirma o consultor.

Outros países produtores de potássio, como Israel, Chile, Jordânia e Alemanha, produzem volumes pequenos e que já têm compradores, assim resta como alternativa o Canadá.

“Mas somos nós indo para o Canadá e toda a torcida do Corinthians”, brinca Mello. “Então, é muito pouco provável que o Canadá consiga repor a falta que Rússia e Belarus farão no mercado.”

Em relação ao fósforo, a Rússia é o terceiro maior exportador, atrás de China e Marrocos. Aqui, segundo o consultor, se 100% das exportações russas forem bloqueadas, não deve faltar fósforo no mundo, mas a situação deve ficar muito similar à do potássio antes da guerra. Ou seja, com um mercado muito apertado e preços elevados.

Por fim, no caso do nitrogênio, matéria-prima para a produção de ureia, muito usada no Brasil como fertilizante e na produção de fórmulas, a Rússia só fica atrás nas exportações se o Oriente Médio é considerado em conjunto, já que países como Arábia Saudita, Catar e Irã — grandes produtores de petróleo e gás natural — são importantes exportadores.

Aqui, explica o consultor, mesmo que as exportações russas sejam totalmente bloqueadas, não deve faltar produto, pois a China está atualmente fora do mercado internacional (o que acontece sazonalmente entre dezembro e março, durante o inverno chinês), mas deve voltar a produzir em maio.

“A China tem uma capacidade de produção [de nitrogenados] imensa, mas ela tem o maior custo de produção do mundo, pois ela produz a partir do carvão, também usado como fonte de energia localmente e por isso muito caro”, explica Mello. “Com os preços dos fertilizantes altíssimos e a saída da Rússia fazendo os preços subir ainda mais, a China não terá problema de custos, então é só ela virar a chave e exportar. Assim, não vai faltar nitrogênio no mundo, mas o preço vai estar alto.”

Ainda no nitrogênio, outras alternativas são países do Norte da África, Nigéria, países do Oriente Médio, EUA e Venezuela.

Em resumo: potássio deve faltar, o que pode afetar a produtividade da agricultura brasileira na próxima safra; fósforo e nitrogênio não devem chegar a sofrer desabastecimento, mas preços tendem a seguir elevados, resultando em aumento de custos ao produtor e mais alta de preços nos alimentos.

E a produção nacional, pode ajudar?

Enquanto a demanda brasileira por fertilizantes crescia ano a ano, a capacidade de produção nacional foi na direção contrária.

Em 2017 e 2018, o país era capaz de produzir 8,2 milhões de toneladas de fertilizantes, volume que caiu a 7,2 milhões de toneladas em 2019 e a 6,5 milhões de toneladas em 2020.

Produção nacional de fertilizantes. Em milhões de toneladas.  *2021 até novembro.
“O Brasil, nos últimos 40 anos, ficou sem uma política estratégica para o setor de fertilizantes e de insumos agrícolas em geral. A consequência disso é que o Brasil se desindustrializou. A cadeia de fertilizantes encolheu 33% nos últimos 20 anos, enquanto a demanda explodiu 400% nesse período”, afirma José Carlos Polidoro, da Embrapa Solos.
“Isso fez com que a nossa dependência de importações saísse de 20% há 20 anos para os atuais mais de 80%. Para o Brasil, que depende do agro, isso é um risco muito grande, chega a ser uma questão de segurança nacional e alimentar.”

Parte relevante da queda recente de produção se deve à decisão da Petrobras de sair do setor de fertilizantes, após os problemas financeiros enfrentados pela empresa antes e depois da Operação Lava Jato.

Fábrica de fertilizantes da Petrobras em Sergipe

CRÉDITO,AGÊNCIA PETROBRASLegenda da foto, Fábrica de fertilizantes da Petrobras em Sergipe, arrendada ao grupo Unigel

Das 4 fábricas de nitrogenados da Petrobras, 2 — em Laranjeiras (SE) e Camaçari (BA) — foram arrendadas pelo grupo Unigel. As unidades retomaram a produção no ano passado, mas ficaram quase um ano paradas, contribuindo para a queda da produção nacional.

Em 2020, a Petrobras decidiu encerrar a produção de uma terceira fábrica de fertilizantes em Araucária (PR), mas era uma unidade que produzia pequenos volumes e de processo produtivo considerado problemático e ultrapassado.

A quarta unidade, de Três Lagoas (MS), foi vendida em fevereiro deste ano para o grupo russo Acron. A planta ainda está em construção, paralisada desde a época da Lava Jato, e agora há dúvidas se os compradores russos conseguirão concluir a obra, diante das sanções econômicas à Rússia, com bloqueio do sistema financeiro do país.

Em fósforo, a Vale vendeu suas minas de fosfato e fábricas de fósforo e ácido sulfúrico à empresa norte-americana Mosaic. Também atuam no setor as empresas privadas Yara e a Fertilizantes Tocantins, controlada atualmente pelo grupo russo com sede na Suíça EuroChem — outra fonte de preocupação por possíveis problemas de fluxo de caixa, devido às sanções.

Em potássio, o país possui uma pequena mina em atividade em Minas Gerais, operada pela brasileira Verde AgriTech.

Uma outra grande jazida foi identificada no Amazonas, mas era considerada inviável por agentes do mercado até recentemente, devido à dificuldade de viabilizar o financiamento para um investimento bilionário no meio da floresta amazônica e próximo a terras indígenas.

Agora, com a disparada dos preços globais de fertilizantes, ambientalistas e indígenas temem que o governo Bolsonaro aumente a pressão para viabilizar o projeto no coração da floresta.

Na quarta-feira (02/03), Bolsonaro já deu declarações nesse sentido. “Nosso Projeto de Lei n° 191 de 2020 ‘permite a exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em terras indígenas'”, disse o presidente.

“Com a guerra Rússia/Ucrânia, hoje corremos o risco da falta do potássio ou aumento do seu preço. Nossa segurança alimentar e agronegócio exigem de nós, Executivo e Legislativo, medidas que nos permitam a não dependência externa de algo que temos em abundância.”

Deu em BBC

Ricardo Rosado de Holanda



Descrição Jornalista