Pandemia 28/02/2022 06:38

Estudos dão mais evidências de que pandemia começou em mercado de Wuhan. Suspeito agora é o guaxinim

Pesquisadores fizeram análises geográficas dos primeiros casos e testes de superfícies no mercado, onde encontraram muitos positivos em gaiola de mamífero selvagem

Dois estudos publicados em formato pré-print neste sábado (26) oferecem mais evidências de que o coronavírus se originou em animais e se espalhou para humanos no final de 2019 no Huanan Seafood Market, em Wuhan, na China.

Os trabalhos ainda não foram revisados por seus pares ou publicados em uma revista profissional.

Um dos estudos usou análise geográfica para mostrar que os primeiros casos conhecidos de Covid-19, diagnosticados em dezembro de 2019, estavam centrados no mercado.

Os pesquisadores também relatam que amostras ambientais que deram positivo para o vírus SARS-CoV-2 foram fortemente associadas a fornecedores de animais vivos.

O outro estudo diz que as duas principais linhagens virais foram o resultado de pelo menos dois eventos em que o vírus cruzou espécies em humanos. A primeira transmissão provavelmente aconteceu no final de novembro ou início de dezembro de 2019, dizem os pesquisadores, e a outra linhagem provavelmente foi introduzida semanas após o primeiro evento.

Especialistas condenaram veementemente a teoria de uma origem laboratorial do vírus, dizendo que não há provas de tais origens ou de um vazamento. Muitos dos pesquisadores por trás dos novos estudos também participaram de uma revisão publicada no verão passado que disse que a pandemia quase certamente se originou em um animal, provavelmente em um mercado de espécies de vida selvagem.

Os novos estudos levam essa área de pesquisa “a um novo nível” e são a evidência mais forte até agora de que a pandemia teve origens relacionadas a animais (ou zoonóticas), disse à CNN Michael Worobey, professor e chefe de ecologia e biologia evolutiva da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos. Worobey foi o autor principal do estudo geográfico e coautor do outro artigo.

Ele chamou as descobertas de uma “vitória” sobre a teoria de que a pandemia se originou em um laboratório. “Não é mais algo que faz sentido imaginar que isso começou de outra maneira”.

Worobey comparou o padrão de propagação inicial do coronavírus a fogos de artifício, com o mercado no centro disso. A explosão começou no final de 2019, mas o padrão mudou completamente em janeiro ou fevereiro de 2020, a marca registrada de um vírus “se infiltrando na comunidade local”.

O estudo observa que “os casos de Covid-19 descobertos em dezembro de 2019 foram geograficamente distribuídos perto e centrados no mercado de Huanan, independentemente de os infectados trabalharem lá ou não, terem visitado ou tido contato conscientemente com alguém que visitou esse mercado no final do ano de 2019″.

“Além desses casos epidemiologicamente ligados ao mercado, a esmagadora maioria estava especificamente ligada à seção ocidental do mercado de Huanan, onde a maioria dos fornecedores de mamíferos vivos estava localizada”, aponta.

Quando os pesquisadores testaram superfícies no mercado em busca do material genético do vírus, houve uma barraca com mais positivos, inclusive em uma gaiola onde um pesquisador já havia visto sendo mantidos lá mamíferos chamados cães-guaxinim.

As descobertas são “o mais próximo e provável possível de ter o vírus em um animal”, disse Robert Garry, professor de microbiologia e imunologia da Tulane Medical School.

Garry foi coautor do estudo que encontrou pelo menos dois eventos de transmissão animal. Ele observa que a pandemia começou com duas grandes linhagens virais, chamadas A e B, embora diga que provavelmente havia ainda mais formas do vírus “que não conseguiram se estabelecer em humanos”.

A linhagem B é a mais comum das duas e a única que já havia sido encontrada no mercado, mas o estudo diz que a linhagem A também circulava pela área no início do surto.

O vírus provavelmente começou com pelo menos duas transmissões de animais, com um cão-guaxinim ou outro mamífero servindo como hospedeiro intermediário antes de se espalhar para os humanos, diz o estudo.

Quando considerado juntamente com relatos de infecção por SARS-CoV-2 em animais como grandes felinos, veados e hamsters, isso mostra que “este é um vírus que simplesmente não se importa com onde se replica”, disse Garry.

Garry e Worobey dizem que os estudos mostram a necessidade urgente de prestar atenção às situações em que animais e humanos interagem diariamente. “Precisamos fazer um trabalho melhor na agricultura e na regulamentação desses animais selvagens”, disse Garry, e “investir em infraestrutura em locais onde os vírus se espalham”.

Worobey também disse que a vigilância humana é crucial para prevenir futuras pandemias, acrescentando que especialistas e autoridades devem ser melhores na detecção de casos de doenças respiratórias sem causa clara, isolando pacientes e sequenciando o vírus. “Esta não é a última vez que isso acontece”, disse ele.

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Ricardo Rosado de Holanda



Descrição Jornalista