Saúde 31/03/2021 06:28

Até o Diretor da OMS não acredita na investigação feita na China sobre a origem do Coronavírus

Em tom crítico, Tedros Adhanom Ghebreyesus apresenta relatório da missão da entidade e lamenta as dificuldades no acesso aos dados originais

A teoria de que o coronavírus causador da covid-19 pode ter escapado de um laboratório na China merece uma investigação mais detalhada.

Assim declarou, de forma surpreendente, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante a apresentação aos Estados membros do relatório definitivo da missão da instituição que, no começo deste ano, investigou a origem da pandemia em Wuhan (China).

Ao longo de um mês, entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro, 17 cientistas internacionais examinaram —sendo que nas duas primeiras semanas ainda de quarentena num hotel— os dados e os principais locais relacionados aos primeiros casos da pandemia, detectados em Wuhan em dezembro de 2019.

O estudo, feito em parceria com especialistas chineses, concluiu que a origem mais provável é o salto de um animal (provavelmente um morcego) para o ser humano, muito possivelmente através de uma espécie intermediária que ainda não foi determinada.

Os cientistas da OMS consideraram pouco provável que o primeiro contágio tenha ocorrido através de comida congelada e “muito improvável” que o vírus tenha escapado de um laboratório.

Recomendaram continuar as investigações sobre as duas primeiras hipóteses, deixando de lado a última.

Mas o diretor da OMS não se mostrou satisfeito com o resultado.

“Não acredito que esta avaliação [sobre os laboratórios] tenha sido suficientemente extensa. São necessários mais dados e estudos para alcançar conclusões mais sólidas”, apontou Tedros em declarações divulgadas pela OMS, abrindo a possibilidade de uma nova missão a Wuhan no futuro.

“Embora a equipe tenha concluído que a fuga de um laboratório seja a hipótese menos provável, isto exige mais investigação, potencialmente com missões adicionais das quais participem especialistas, que estou disposto a enviar”, apontou.

“Vou dizer claramente que, no que diz respeito à OMS, todas as hipóteses continuam sobre a mesa”, acrescentou Tedros, mostrando-se insolitamente crítico:

“Em minhas conversas com a equipe, eles expressaram as dificuldades que tiveram para acessar os dados brutos. Espero que futuros estudos em colaboração incluam o intercâmbio de dados de maneira mais extensa e mais ágil”.

As declarações do diretor-geral da OMS sem dúvida inflamarão Pequim. Desde o começo da pandemia, a China é alvo de numerosas críticas no Ocidente, especialmente por parte do Governo norte-americano encabeçado por Donald Trump, por sua falta de transparência na gestão da crise.

A Casa Branca de Trump ecoou com veemência a teoria de que a pandemia poderia ter surgido num laboratório, o Instituto da Virologia de Wuhan, onde eram investigados vírus em morcegos.

Pequim sempre negou essa possibilidade e, por outro lado, um de seus porta-vozes chegou a insinuar que a covid-19 poderia ter chegado a Wuhan levada por soldados norte-americanos que participaram da Olimpíada Militar realizada em outubro de 2019 nessa cidade.

Deu em El País

Ricardo Rosado de Holanda



Descrição Jornalista