Sem categoria 25/04/2017 12:02

A vítima que está em quase todas as listas da ditadura na UFRN

Recife, 2 de abril de 1964. Militares cercam o Palácio do Campo das Princesas para chantagear o governador Miguel Arraes. Querem que ele se adeque ao novo regime que se instalara no dia anterior. A notícia se espalha e chega às escolas. Estudante secundarista, Rinaldo Claudino de Barros se junta à multidão de alunos para marchar em defesa do governador.

Deu no Portalnoar
Por Dinarte Assunção
Recife, 2 de abril de 1964. Militares cercam o Palácio do Campo das Princesas para chantagear o governador Miguel Arraes. Querem que ele se adeque ao novo regime que se instalara no dia anterior. A notícia se espalha e chega às escolas. Estudante secundarista, Rinaldo Claudino de Barros se junta à multidão de alunos para marchar em defesa do governador.
Um amigo, Jonas, pegou uma bandeira do Brasil e nela se envolveu, marchando à frente da passeata. O grupo jamais chegou sequer a enxergar a imponente fachada neoclassicista da sede do governo de Pernambuco.
O Exército não permitiu o avanço do clamor e abriu fogo. Daquele dia, Rinaldo se lembra que a bandeira do Brasil afrouxou no corpo de Jonas, antes que ele caísse morto com um tiro na nuca. Os jornais noticiaram no dia seguinte que o Exército disparou para cima. Rinaldo nunca mais foi o mesmo.
“Isso mexeu comigo. Eu queria justiça. Eu era um líder estudantil que mexia com coisas do cotidiano. Pedir bebedouro, reclamar das instalações. Aquele tiro na cabeça de meu amigo mudou tudo”, relembrou Rinaldo à reportagem. Na época, ele tinha 16 anos.
A metamorfose de Rinaldo está catalogada no relatório final da Comissão da Verdade da UFRN. Concluído em 2015, o documento ganhou notoriedade agora depois que a editora da universidade decidiu lançar uma edição especial do documento, revelando a muitas pessoas fichas de espionagem feitas na ditadura e até então desconhecidas.
Das listas elaboradas pela Comissão da Verdade, Rinaldo só não consta na de mortos e desaparecidos. Mas seu nome se repete na de torturados, presos, perseguidos e espionados. “Tudo começou na eleição para o Diretório Central Estudantil”, recorda o hoje professor aposentado, com 71 anos.
Após presenciar a morte de Jonas, Rinaldo se envolveu na atividade sindical no Recife. Informado de que seria preso, pediu abrigo a um amigo em Natal, para onde veio na primeira metade da década de 1970. Na capital potiguar, deu uma guinada nos sonhos. Queria ser engenheiro, mas fez vestibular para Sociologia. Envolveu-se na atividade estudantil. Então veio a eleição para o DCE.
“O diretor da faculdade me chamou para dizer que eu deveria apoiar o candidato dele. Eu não só me recusei como saí em todas as salas explicando a proposta indecorosa que ele me fez. Isso me custou ter os direitos estudantis cassados”, relembra Barros. Foi o único atingido pelo Decreto-Lei nº 477.
Tanto mais era perseguido, mais se inquietava. Afastado das atividades estudantis, se envolveu com grupos que só podiam se reunir na clandestinidade. Rinaldo relata que eram encontros de duas ou três pessoas para conversar trivialidades, mas que isso era considerado ilegal e uma ameça ao regime militar.
Torturado
Nessa época, se sustentava vendendo livros, quando surgiu a oportunidade de ser funcionário da extinta Escola Técnica do Nordeste (Cetene). Passou a viajar em serviço, quando foi preso, em São Paulo. Tinha 30 anos. “Um amigo foi preso em Natal e saiu entregando todo mundo”, recorda o professor. Nos primeiros 40 dias de prisão, foi torturado física e psicologicamente.
“Fui espancado, colocado na ‘geladeira’ entre outras barbaridades. A geladeira era uma sala de metal com potentes condicionadores de ar. Era jogado lá de cueca. O frio me fazia regredir psicologicamente. Tenho quatro costelas quebradas e vertebras soldadas dos choques que levei”, revelou o professor.
Ali, ele entendia que seria seu fim. No entanto, contou, jogado em outra cela, viu-se com um companheiro de batalha, que lhe revelou que ele só precisava contar tudo o que os militares já sabiam se quisesse viver. Rinaldo diz que contou, então, o que já era de conhecimento dos militares e as torturas cessaram. Ficou preso por dois anos.
Restrições
Na lista da Comissão da Verdade da UFRN, Rinaldo ainda figura entre aqueles que tiveram restrições em sua contratação pela universidade.
Após deixar a prisão, ele requereu e obteve bolsa da UFRN para fazer mestrado na Unicamp. Em troca, deveria voltar para Natal e ser professor da universidade federal. Fechou o acordo.
Mas ele jamais chegou a ser contratado. Seu processo, quando já estava de volta a Natal sumiu. Esses eventos foram tão traumatizantes quanto a tortura, razão pela qual moveu processo, oito anos atrás, contra a UFRN. Hoje, Rinaldo Barros, aposentado pela Universidade Estadual do RN (UERN), na qual ingressou em 1988, aguarda os resultados dos processos. Tem vencido em todas as instâncias.
Enquanto a aproveita a aposentadoria, faz um comentário sobre quem vai às ruas pedir a volta do regime militar.
“as pessoas não tem ideia do valor da democracia. Os valores são inestimáveis. A democracia é uma coisa indescritível. Quem faz manifestação para lá e para cá não tem ideia de como seria se fosse num regime militar. É falta de noção pedir a volta do regime. Perder a democracia é como perder o oxigênio

Ricardo Rosado de Holanda



Descrição Jornalista