FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Inteligência 14/01/2026 16:20

2 hábitos “irritantes” que indicam que você é inteligente, segundo estudos com mais de 4.600 pessoas

2 hábitos “irritantes” que indicam que você é inteligente, segundo estudos com mais de 4.600 pessoas

Momentos em que a atenção escapa da tarefa, ou instantes em que a pessoa parece “desligar” e se perde em pensamentos, costumam ser tratados como sinais de distração e falta de disciplina.

No entanto, pesquisas recentes em psicologia e neurociência sugerem que, em contextos específicos, esses comportamentos podem estar ligados a processos mentais funcionais, como flexibilidade cognitiva, criatividade e autorregulação.

Evidências desse tipo aparecem em estudos que, somados, analisaram mais de 4.600 participantes, com resultados que vão além da ideia de “falha de concentração” como explicação única.

A leitura não é a de que “distração” seja sempre positiva, nem de que qualquer devaneio indique desempenho superior.

O que esses trabalhos apontam é que existem diferenças entre tipos de pensamento espontâneo e formas de fala interna, e que algumas delas se associam a criatividade, memória, controle do comportamento e clareza sobre si mesmo.

Quando a mente “vagando” pode ser um recurso cognitivo

O chamado mind-wandering, termo usado para descrever o desvio da atenção da tarefa imediata para pensamentos auto-gerados, costuma ser interpretado como sinônimo de desatenção.

Ainda assim, pesquisadores têm separado esse fenômeno em modalidades diferentes, incluindo uma forma deliberada, quando a pessoa “permite” que o pensamento se afaste por escolha, em vez de apenas perder o foco sem perceber.

Uma linha de pesquisa apresentada por um grupo ligado à European College of Neuropsychopharmacology descreveu dois estudos de grande escala sobre traços de TDAH, devaneio e criatividade.

O material destaca que o mind-wandering deliberado apareceu associado a escores mais altos em medidas de criatividade dentro das amostras analisadas.

Esse tipo de achado conversa com uma hipótese mais ampla, recorrente na literatura científica.

A criatividade tende a emergir de um equilíbrio entre pensamento espontâneo e controle cognitivo, em vez de depender apenas de foco sustentado o tempo todo.

Um estudo descrito no PubMed examina em escala multicêntrica a ideia de que a capacidade criativa se relaciona com a interação entre redes cerebrais associadas ao pensamento espontâneo e redes de controle executivo.

Na prática, os resultados desse conjunto de pesquisas não autorizam a conclusão de que “divagar” seja automaticamente bom.

O ponto é mais específico.

Em vez de enxergar o fenômeno como mero “ruído” mental, os estudos sugerem que o cérebro alterna entre modos de funcionamento, e que essa alternância pode ter papel em tarefas criativas e na construção de soluções quando a pessoa retorna ao foco.

Pensamentos espontâneos e o sentido do “pensar à toa”

Outra evidência relevante vem de um estudo que analisou, com técnicas de processamento de linguagem natural e aprendizado de máquina, dados de “pensar em voz alta” de 3.359 participantes.

A pesquisa investigou a dinâmica do pensamento espontâneo e concluiu que esse tipo de cognição tende a priorizar conteúdos relacionados a preocupações atuais e metas em andamento, além de apresentar sinais de contribuição para a otimização da memória.

Em outras palavras, o “pensar à toa” pode se organizar ao redor do que é importante para a pessoa naquele momento.

Isso contraria a ideia de que se trata apenas de uma sequência aleatória de ideias desconectadas.

Esse achado não transforma o devaneio em ferramenta universal.

Ainda assim, reforça a noção de que há funções cognitivas possíveis por trás do fenômeno, especialmente quando ele ocorre sem comprometer a capacidade de voltar à tarefa e monitorar o próprio estado mental.

Falar sozinho e a relação com autocontrole e clareza mental

O segundo hábito que costuma receber olhares tortos é falar sozinho, seja com palavras sussurradas, seja como fala interna silenciosa.

Para quem observa de fora, o comportamento pode parecer excentricidade.

Na pesquisa psicológica, porém, fala interna e autoorientação verbal são discutidas como elementos ligados à autorregulação, planejamento e metacognição, que é a capacidade de observar e ajustar os próprios pensamentos.

Um estudo publicado na revista Behavioral Sciences examinou relações entre processos como self-talk, fala interna, devaneio, mindfulness, clareza de autoconceito e autorregulação em uma amostra de universitários.

Os resultados apontaram associações entre fala interna e indicadores ligados ao autocontrole e à organização mental, ainda que os próprios autores ressaltem limites metodológicos.

O estudo trabalha com correlações, o que significa que não estabelece causa e efeito.

Mesmo assim, ajuda a contextualizar por que algumas pessoas relatam que falar consigo mesmas funciona como uma forma de organizar ideias, planejar ações ou acompanhar o que estão fazendo.

O que aparece na literatura é que a fala dirigida a si pode atuar como ferramenta de monitoramento mental, variando conforme o tipo de discurso interno e o contexto em que ocorre.

O que esses hábitos não indicam automaticamente

Reconhecer possíveis benefícios do devaneio e da fala interna não elimina o fato de que ambos também podem se associar a prejuízos.

Isso ocorre, sobretudo, quando se tornam frequentes a ponto de impedir tarefas, aumentar sofrimento ou comprometer a rotina.

Por esse motivo, as pesquisas citadas não descrevem atalhos para ser mais criativo ou mais disciplinado.

Ainda assim, ao deslocar a discussão de julgamentos morais para uma leitura baseada em evidências, os estudos ajudam a explicar por que comportamentos vistos como “irritantes” podem coexistir com desempenho cognitivo e estratégias de autorregulação em parte das pessoas.

Se a mente alterna entre exploração e controle, e se a linguagem interna pode servir de apoio ao planejamento, que outros hábitos cotidianos hoje tratados como falhas podem estar escondendo funções mentais relevantes?

Deu em CPG
Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista