Inteligência 14/01/2026 16:20
2 hábitos “irritantes” que indicam que você é inteligente, segundo estudos com mais de 4.600 pessoas

Momentos em que a atenção escapa da tarefa, ou instantes em que a pessoa parece “desligar” e se perde em pensamentos, costumam ser tratados como sinais de distração e falta de disciplina.
No entanto, pesquisas recentes em psicologia e neurociência sugerem que, em contextos específicos, esses comportamentos podem estar ligados a processos mentais funcionais, como flexibilidade cognitiva, criatividade e autorregulação.
Evidências desse tipo aparecem em estudos que, somados, analisaram mais de 4.600 participantes, com resultados que vão além da ideia de “falha de concentração” como explicação única.
O que esses trabalhos apontam é que existem diferenças entre tipos de pensamento espontâneo e formas de fala interna, e que algumas delas se associam a criatividade, memória, controle do comportamento e clareza sobre si mesmo.
O chamado mind-wandering, termo usado para descrever o desvio da atenção da tarefa imediata para pensamentos auto-gerados, costuma ser interpretado como sinônimo de desatenção.
Ainda assim, pesquisadores têm separado esse fenômeno em modalidades diferentes, incluindo uma forma deliberada, quando a pessoa “permite” que o pensamento se afaste por escolha, em vez de apenas perder o foco sem perceber.
Uma linha de pesquisa apresentada por um grupo ligado à European College of Neuropsychopharmacology descreveu dois estudos de grande escala sobre traços de TDAH, devaneio e criatividade.
O material destaca que o mind-wandering deliberado apareceu associado a escores mais altos em medidas de criatividade dentro das amostras analisadas.
Esse tipo de achado conversa com uma hipótese mais ampla, recorrente na literatura científica.
A criatividade tende a emergir de um equilíbrio entre pensamento espontâneo e controle cognitivo, em vez de depender apenas de foco sustentado o tempo todo.
Um estudo descrito no PubMed examina em escala multicêntrica a ideia de que a capacidade criativa se relaciona com a interação entre redes cerebrais associadas ao pensamento espontâneo e redes de controle executivo.
Na prática, os resultados desse conjunto de pesquisas não autorizam a conclusão de que “divagar” seja automaticamente bom.
O ponto é mais específico.
Em vez de enxergar o fenômeno como mero “ruído” mental, os estudos sugerem que o cérebro alterna entre modos de funcionamento, e que essa alternância pode ter papel em tarefas criativas e na construção de soluções quando a pessoa retorna ao foco.
Outra evidência relevante vem de um estudo que analisou, com técnicas de processamento de linguagem natural e aprendizado de máquina, dados de “pensar em voz alta” de 3.359 participantes.
A pesquisa investigou a dinâmica do pensamento espontâneo e concluiu que esse tipo de cognição tende a priorizar conteúdos relacionados a preocupações atuais e metas em andamento, além de apresentar sinais de contribuição para a otimização da memória.
Em outras palavras, o “pensar à toa” pode se organizar ao redor do que é importante para a pessoa naquele momento.
Isso contraria a ideia de que se trata apenas de uma sequência aleatória de ideias desconectadas.
Esse achado não transforma o devaneio em ferramenta universal.
Ainda assim, reforça a noção de que há funções cognitivas possíveis por trás do fenômeno, especialmente quando ele ocorre sem comprometer a capacidade de voltar à tarefa e monitorar o próprio estado mental.
O segundo hábito que costuma receber olhares tortos é falar sozinho, seja com palavras sussurradas, seja como fala interna silenciosa.
Para quem observa de fora, o comportamento pode parecer excentricidade.
Na pesquisa psicológica, porém, fala interna e autoorientação verbal são discutidas como elementos ligados à autorregulação, planejamento e metacognição, que é a capacidade de observar e ajustar os próprios pensamentos.
Um estudo publicado na revista Behavioral Sciences examinou relações entre processos como self-talk, fala interna, devaneio, mindfulness, clareza de autoconceito e autorregulação em uma amostra de universitários.
Os resultados apontaram associações entre fala interna e indicadores ligados ao autocontrole e à organização mental, ainda que os próprios autores ressaltem limites metodológicos.
O estudo trabalha com correlações, o que significa que não estabelece causa e efeito.
Mesmo assim, ajuda a contextualizar por que algumas pessoas relatam que falar consigo mesmas funciona como uma forma de organizar ideias, planejar ações ou acompanhar o que estão fazendo.
O que aparece na literatura é que a fala dirigida a si pode atuar como ferramenta de monitoramento mental, variando conforme o tipo de discurso interno e o contexto em que ocorre.
Reconhecer possíveis benefícios do devaneio e da fala interna não elimina o fato de que ambos também podem se associar a prejuízos.
Isso ocorre, sobretudo, quando se tornam frequentes a ponto de impedir tarefas, aumentar sofrimento ou comprometer a rotina.
Por esse motivo, as pesquisas citadas não descrevem atalhos para ser mais criativo ou mais disciplinado.
Ainda assim, ao deslocar a discussão de julgamentos morais para uma leitura baseada em evidências, os estudos ajudam a explicar por que comportamentos vistos como “irritantes” podem coexistir com desempenho cognitivo e estratégias de autorregulação em parte das pessoas.
Se a mente alterna entre exploração e controle, e se a linguagem interna pode servir de apoio ao planejamento, que outros hábitos cotidianos hoje tratados como falhas podem estar escondendo funções mentais relevantes?

Descrição Jornalista
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