Crônica 30/04/2021 07:04

Quero virar um jacaré

Hoje eu completo o vigésimo oitavo dia da primeira dose de Coronavac.

Hoje eu completo o vigésimo oitavo dia da primeira dose de Coronavac.

Então, pra todos os artigos, parágrafos e incisos do código da esperança, eu deveria receber até hoje a segunda dose.

E, quem sabe, ganhar maior imunidade contra a pandemia que destroça o mundo, a liberdade, a convivência fraterna entre os iguais e também os desiguais, o encontro, o abraço, o beijo, o simples apertar de mão, o carinho, a conversa pura. Destroça o jeito que você aprendeu a viver.

“E a vida, e a vida o que é, diga lá, meu irmão”.

Eu deveria tomar hoje a segunda dose.

É que neste dia, que poderia ser todo especial, sou informado que faltou vacina, que não vou ganhar a imunidade e que, se quiser, tenho que esperar mais alguns dias.

A imprecisão de quantos dias é um moderno instrumento de tortura.

Aí corri para ler, assistir, ouvir tudo que é notícia a respeito. Além de receber 2.532 ligações de amigos de geração que estão  numa agonia maior do que a minha.

Sim, estou menos ansioso, já que tomei uma decisão sábia.

Depois eu explico.

Calma.

Nestas notícias um “cientista” (alíás, como o Brasil produziu “cientistas” nos últimos tempos), diz que o prazo fatal é o vigésimo oitavo dia.

Como não tem a vacina, posso escrever em inglês de Oxford: me lasquei, tô reiado.

Um secretário de saúde – atordoado e confuso –  diz que pode ser até o décimo quinto dia após o prazo mortífero. Que a vacina chinesa tem a paciência oriental e ainda fará efeito.

Outro assegura que falou com o Butatan e o instituto garantiu que pode tomar a segunda dose até o trigésimo dia após o vigésimo oitavo.

Vejam só a confusão onde estou metido.

A vacina tem uma espécie de imunizante complacente e o vírus deve ter sido treinado no centralismo democrático para esperar obediente a decisão de cima.

Enquanto não chegar a gente vai levando.

Vão furando em outros orifícios.

Porém, diante de todas essas incertezas, tomei a decisão e agora farei a revelação bombástica: quero virar jacaré.

Uma excelente característica do bicho é seu jeitão pré-histórico, onde os vírus que conheceu e conviveu, por milhares de anos, num fizerem nem cócegas.  Ele triturou nos dentes e ainda chora de manhoso.

O bicho tem hábitos noturnos.

É um boêmio da natureza.

De dia, sabe o que ele faz?

Junta a patota e passa o tempo inteiro pegando sol, cochilando, abre um olho e fecha o outro pra não se cansar.

Vida mansa, em beira de rio, em ilhas paradisíacas.

Falam que é bicho de sangue frio. Ainda vou checar.

É uma saída genial para enfrentar o mundo apocalíptico de hoje em dia. De sangue quente esquenta a cabeça demais, pipoca o coração, as veias explodem cada vez que você liga a tv e assiste um programa dito jornalístico.

O meu novo malvado preferido tem pelo grossa  e espinhaço pra aguentar as porradas do dia a dia.

E aí uma ameaça nem penetra na armadura. Imagine um vírus galado.

E não provoque que pode receber um encaixe mortal de uma fileira de dentes cônicos, com mandíbula e maxila prontas para defesa e pro ataque.

Nos dias atuais qualquer afirmação ou mesmo informação, fato,  que venha a contrariar a narrativa das tribos do ódio eterno e de todas as cores, você vai precisar destes instrumentos de proteção, já que a divina, com o fechamento dos templos, você  está proibido de receber.

Fique desarmado, dê uma bobeira e você já era.

Jacaré parece que tá de bobeira. Mas, se vacilar, ele abocanha e leva pras profundezas.

Como se suspeita os répteis foram os primeiros animais a conquistarem o ambiente terrestre.

A gente não sabe se vai ter terra ou gente após este apocalipse atual.

Então nada mais prudente do que virar um réptil e aguardar os acontecimentos. Bicho que tem experiência antiga por esses lados do universo. Talvez reconquistar a terra de novo.

Pra isso tem outra e definitiva vantagem em virar um jacaré: o danado não é desinformado. Fica só com os olhos de fora, só cubando. Ao perceber alguma investida desagradável ele prefere mergulhar, de mansinho, sem fazer marola. Agora, invente mergulhar junto!

Até depois de morto virar jacaré pode ser vantajoso e aparecer todo orgulhoso nas camisas francesas que nunca deixam a moda.

Ao virar um jacaré eu não vou precisar de vacina se morder o gado que tentar atravessar meu habitat. Pode levar uma mordida letal.

Saudação, réptil.

Ricardo Rosado de Holanda



Descrição Jornalista