Alimentos 05/04/2021 10:54

Fome atingiu 19 milhões de brasileiros na pandemia, segundo pesquisa nacional inédita

Mais da metade dos domicílios brasileiros (55,2%), ou seja, mais de 116,8 milhões de pessoas, conviveram com algum grau de insegurança alimentar no final de 2020 e 9% deles vivenciaram insegurança alimentar grave, o que significa que 19 milhões de brasileiros passaram fome.

Estudo conduzido pela Rede PENSSAN, com apoio do Instituto Ibirapitanga e parceria de ActionAid Brasil, Fundação Friedrich Ebert Stiftung e Oxfam Brasil, aponta também que mais da metade dos lares brasileiros conviveu com algum grau de insegurança alimentar nos três meses anteriores ao período de coleta, feita em dezembro de 2020

• Dados foram coletados nas cinco regiões brasileiras, em áreas rurais e urbanas, justamente quando o Auxílio Emergencial havia sido reduzido pela metade. Especialistas apontam que, com a nova diminuição do auxílio, o quadro deve piorar.

Mais da metade dos domicílios brasileiros (55,2%), ou seja, mais de 116,8 milhões de pessoas, conviveram com algum grau de insegurança alimentar no final de 2020 e 9% deles vivenciaram insegurança alimentar grave, o que significa que 19 milhões de brasileiros passaram fome.
Isso é o dobro do que fora registrado em 2009, e representa um regresso ao nível observado em 2004, quase um ano após o lançamento do programa Fome Zero.
É o que revela o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, lançado nesta segunda-feira, 5 de abril.

Acesse a pesquisa na íntegra: olheparaafome.com.br .

As informações correspondem aos três meses anteriores à coleta de dados, entre os dias 5 e 24 dezembro de 2020, em amostra representativa de 2.180 domicílios das cinco regiões brasileiras, em áreas rurais e urbanas.
A pesquisa é conduzida pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), constituída por pesquisadores, professores, estudantes e profissionais, com apoio do Instituto Ibirapitanga e parceria da ActionAid Brasil, da Fundação Friedrich Ebert Stiftung e da Oxfam Brasil.

Essa pesquisa foi realizada justamente no período em que o Auxílio Emergencial, concedido a 68 milhões de brasileiros, tinha sido reduzido pela metade (de R﹩ 600 mensais para R﹩ 300 mensais).
Em 2021, de janeiro a março, a população que vinha sendo atendida pelo auxílio ficou sem o amparo.
Uma nova rodada começará a ser paga nos próximos dias, mas para um público mais restrito e em valores ainda menores: variam de R﹩ 375 (para famílias chefiadas por mulheres) a R﹩ 150 (para quem mora sozinho).

“Com a diminuição do Auxílio Emergencial e a falta de clareza sobre quem irá, de fato, recebê-lo, o país deve persistir num grave quadro de insegurança alimentar. A forma com que os governos vêm lidando com as crises econômica e política dos últimos anos, sobreposta à pandemia da Covid-19, geraram impactos negativos profundos no direito humano à alimentação adequada e saudável do povo brasileiro”, afirma Ana Maria Segall, médica epidemiologista e pesquisadora da Rede PENSSAN.

Destaques da pesquisa

Nesse período da pandemia, a fome se fez mais presente justamente entre as famílias com menor renda familiar per capita.
É notável que a insegurança alimentar moderada e grave desaparece em domicílios com renda familiar mensal acima de um salário mínimo por pessoa.
Mais de ¾ desse grupo (76,6%) está em condições de segurança alimentar. Número que cai drasticamente para 47,6% para quem tem renda familiar per capita mensal de meio a um salário mínimo.

O estudo evidencia uma relação entre segurança alimentar e gênero. Existe fome em 11,1% dos domicílios chefiados por mulheres, e outros 15,9% enfrentam insegurança alimentar moderada.
Quando a pessoa de referência é um homem, os números são menores: a fome atinge 7,7% dos domicílios, e outros 7,7% estão na situação de insegurança alimentar moderada.

Há, também, uma forte ligação entre fome e cor da pele. Pessoas pretas ou pardas enfrentam insegurança alimentar grave – ou seja, passam fome – em 10,7% dos domicílios.
O percentual é de 7,5% em domicílios de pessoas de raça/cor da pele branca. A insegurança alimentar moderada também revela esse desequilíbrio: 13,7% para pessoas de raça/cor da pele preta ou parda, e 8,9% para pessoas de raça/cor da pele branca.

As desigualdades foram percebidas, também, entre as diferentes regiões do Brasil. No Norte e no Nordeste, a fome chega a, respectivamente, 18,1% e 13,8% dos domicílios. Esses percentuais não chegam a 7% nas demais regiões do país, e superam o dado de 9% referente a todo território nacional. Passa-se mais fome no Norte e Nordeste do que em outras regiões.

No campo, os índices de fome são maiores – a pesquisa indicou que a insegurança alimentar grave alcançou 12% dos domicílios na área rural, contra 8,5% em área urbana.
A vulnerabilidade acompanha quem tem menor acesso à água potável. Nas áreas rurais, a proporção de domicílios classificados em situação de insegurança alimentar grave dobra quando não há disponibilidade adequada de água para a produção de alimentos (21,1% para 44,2%).

Mas não foram só os mais pobres que foram impactados pela insegurança alimentar durante a pandemia. Comparada aos dados do IBGE de 2018, a pesquisa aponta que apenas dois anos depois, em 2020, a proporção de domicílios em situação de insegurança alimentar leve quase dobrou, passando de 20,7% para 34,7%, mostrando que a classe média não foi poupada dos efeitos da pandemia.

“Era previsível que a comida, tanto sua disponibilidade como o acesso a ela, viesse a ocupar o centro das preocupações e urgências no contexto de pandemia pela qual estamos passando, ao lado, e como complemento indispensável, dos cuidados com a saúde das pessoas infectadas, ou não, pelo vírus mais recente”, explica Renato Maluf, Coordenador da Rede PENSSAN.

Sobre a Rede PENSSAN

A Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), criada em 2012, congrega pesquisadoras(es), professores, estudantes e profissionais de todo o país na forma de uma rede de pesquisa e intercâmbio científico independente e autônoma em relação a governos, partidos políticos, organismos nacionais e internacionais e interesses privados.
Uma organização sem fins lucrativos e que tem entre seus objetivos o exercício de uma pesquisa cidadã comprometida com a erradicação da fome e a promoção da soberania alimentar e nutricional, tendo o direito humano à alimentação adequada como diretriz. A rede busca contribuir para o debate público de ações e políticas que tenham interação com a Segurança Alimentar e Nutricional da população brasileira.
Fonte: Assessoria
Ricardo Rosado de Holanda



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