Combustíveis 10/03/2022 18:15

‘Agora é questão de desespero’, diz líder caminhoneiro sobre alta de 25% no diesel

'Queremos o fim da paridade de preços internacional'

“Agora é uma questão de desespero”, resume Wallace Landim, o Chorão, presidente da Abrava (Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores) e um dos líderes da greve de caminhoneiros de 2018.

A Petrobras anunciou nesta quinta-feira (10/3) reajuste de 25% para o diesel, de 19% para a gasolina e de 16% para o gás de cozinha, repassando aos consumidores brasileiros a forte alta do petróleo no mercado internacional em decorrência da guerra da Ucrânia.

Os novos valores passam a ser cobrados a partir da sexta-feira (11/3) nas refinarias e distribuidoras.

Somente em 2021, a gasolina acumulou alta de 47%, o diesel de 46% e o gás de botijão de 37%, bem acima do aumento de 10% da inflação em geral, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

‘Eu não decido nada’

A alta de preços dos combustíveis nesta quinta-feira acontece mesmo após o presidente Jair Bolsonaro (PL) ter criticado a política de preços da Petrobras e dito que buscaria soluções para mitigar o reajuste.

“Se você for repassar isso tudo para o preço dos combustíveis, você tem que dar um aumento em torno de 50% nos combustíveis, não é admissível você fazer. A população não aguenta uma alta por esse percentual aqui no Brasil”, disse Bolsonaro na segunda-feira (7/3).

Nesta quinta-feira, o presidente se eximiu de responsabilidade pelo reajuste.

“No mundo todo aumentou [o preço dos combustíveis]. Eu não defino preço na Petrobras. Eu não decido nada, não. Só quando tem problema cai no meu colo”, disse a apoiadores.

Ainda nesta quinta, está prevista a votação no Senado de dois projetos de lei que buscam minimizar a alta de preços dos combustíveis: o PLP 11/2020, que estabelece alíquota única e com valor fixo para a cobrança de ICMS sobre combustíveis e permite a inclusão de mais 5 milhões de famílias no Auxílio Gás; e o PL 1.472/2021, que cria uma conta para financiar a estabilização de preços dos combustíveis.

Apesar da urgência do tema em meio a escalada dos preços do petróleo devido à guerra no leste europeu, três tentativas de votação anteriores foram adiadas devido a dificuldades na negociação com o governo federal.

‘Queremos o fim da paridade de preços internacional’

Para o presidente da Abrava, no entanto, as propostas em tramitação no Senado são paliativas e não resolvem a difícil situação em que se encontram os caminhoneiros.

Segundo Landim, a promessa é de que as medidas em discussão gerassem uma redução de 30% no preço dos combustíveis, mas esse percentual já estaria praticamente superado pela alta de 25% no diesel anunciada hoje pela Petrobras.

“A Petrobras foi criada para beneficiar o povo brasileiro. Ela hoje trabalha para o mercado”, avalia o líder caminhoneiro.

“O que nós cobramos é que se retire o PPI, o preço de paridade de importação. Nós não ganhamos em dólar, ganhamos em real, e somos autossuficientes [em petróleo]. Até quando a população vai ficar sofrendo?”, questiona.

Posto de gasolina em São Paulo

CRÉDITO,FILIPE ARAUJO Aumento dos combustíveis terá fortes implicações na economia

A Petrobras adotou o chamado preço de paridade de importação (PPI) em 2016, durante o governo de Michel Temer. O modelo foi estabelecido após a empresa passar anos praticando preços controlados, sobretudo no governo de Dilma Rousseff (PT).

O controle de preços era uma forma de o governo mitigar a inflação, mas causou grandes prejuízos à petroleira.

Em 2018, durante a greve dos caminhoneiros, o modelo de paridade passou a ser bastante questionado. Mas, naquela ocasião, o governo optou por manter a política de preços, subsidiando temporariamente o diesel através de um desembolso de R$ 4,8 bilhões.

Agora, a paridade está no centro do debate eleitoral com candidatos como Lula (PT) e Ciro Gomes (PDT) prometendo mudar a política de preços da Petrobras e Bolsonaro questionando o modelo adotado pela estatal, de olho na reeleição.

Questionado se há ímpeto para greve entre os caminhoneiros após o reajuste desta quinta-feira, o presidente da Abrava lembra que diversas conquistas da categoria na paralisação de 2018 ficaram só no papel.

Além disso, os caminhoneiros não querem ser responsabilizados por soluções que repassem os custos à população, já muito afetada pela alta recente da inflação.

“Conseguir mobilizar a gente consegue, mas a gente vai levar essa culpa?”, questiona Chorão. “Quem precisa se mobilizar é todo mundo que está sofrendo.”

Segundo o líder caminhoneiro, mesmo que não haja greve, muitos caminhoneiros devem parar de rodar devido à alta do diesel. “A paralisação vai ser automática, a categoria vai parar porque não tem mais condições de rodar”, afirma.

Deu em BBC

Ricardo Rosado de Holanda



Descrição Jornalista